A torta anarquista
O deputado José Genoíno não é o arquiduque da Áustria, Francisco Ferdinando, nem aquela magrela bonitinha o anarquista sérvio Gavrilo Princip. Os tempos mudaram. Em vez de tiros, os anarquistas contemporâneos se contentam com tortas. Enfim, melhor uma torta que um tiro. Não deixa de ser um atentado, mas, risco, só se Genoíno fosse diabético.

A vantagem das tortas sobre os tiros (uma lição para o dr. Bush) é que elas permitem o debate. Ninguém merece morrer, mas não há obstáculo moral para a pergunta: "Será que ele merecia essa torta?"

No caso de Genoíno, não. O deputado é um dos maiores quadros da política brasileira, um sujeito de uma trajetória política das mais sólidas na história republicana.

Mas é possível aceitar que real, ali, só a torta. Genoíno era simbólico. Atirou-se a torta no PT. Ou no governo petista. A magricela bonitinha gritava: "Lula não nos representa em Davos".

Vale então a pergunta: o governo petista merecia uma torta?

Merecimento é coisa para Deus ou para nossa vaidade. Toda resposta virá, portanto, carregada de subjetividade. Mas, o que sobrar de objetividade é suficiente: agraciar com uma torta um governo que ainda não completou um mês é roubar dignidade à Ordem do Merengue. A Internacional Confeiteira deveria advertir a célula nativa que desse jeito nem tortas podem ser levadas a sério.

Fantasmas
Engraçado mesmo é ver o fantasma do anarquismo rondando a esquerda novamente. À direita, anarquista é sinônimo de arruaceiro. À esquerda, é palavrão conceitual. Anarquista e comunista (ou socialista, como queiram) são como o neurótico e o psicótico da psicanálise: não se misturam. Ou Caim e Abel, já que falamos de religiões.