Antes de mais nada, qualquer interessado em usar o cogumelo semelhante ao Stropharia cubensis que cresce nas bostas de vaca do Brasil deveria preencher os seguintes requisitos:

1. Bom conhecimento em filosofia

2. Mente saudável

3. Conhecer algo da história da psicodelia, em especial a biografia de Timothy Leary, Flashbacks.

Como em geral são adolescentes imbecis que usam drogas diferentes de cocaína ou maconha, é aconselhável que tomem os cogumelos ao menos acompanhados de algum amigo sóbrio e, se possível, em casa, numa sala confortável, sem decoração agressiva, com música decente e calma tocando. Uma boa opção de ambiente é um monte de almofadas no chão, meia-luz e mogwai na vitrola.

NÃO TOME COGUMELOS SEM TER CERTEZA DE QUE SÃO OS QUE ESTÁ PROCURANDO.

É evidentemente perigoso. Procurar cogumelos alucinógenos sem nunca ter visto um é besteira, mas pelos mesmos motivos de antes, aqui vão algumas dicas de como reconhecer o bicho:

1. Crescem sobre as bostas de vaca, após uma chuva ou garoa.

2. Os mais altos tem cerca de 10cm, com uma cabeça circular de até 5cm de diâmetro, de coloração branco-dourada. Às vezes, há um anel preto no caule branco. A consistência é carnosa e ele se despedaça com facilidade.

3. Mais importante: ao entrar em contato com o ar, a parte interna do caule fica roxo-azulada. Abra o caule, para verificar, e espere alguns minutos.

Há várias formas de ingestão. A mais popular é a infusão. Basta ferver os cogumelos durante alguns minutos, podendo-se acrescentar vinho, cachaça, sucos, ervas, qualquer coisa. O gosto é tenebroso, em compensação bate mais rápido. Minha forma preferida é lavar e comê-los dentro de um pão, cabeças e caule. Dá menos trabalho, a onda chega de forma mais suave, dura mais e é mais forte. Café ou cerveja ajudam a tirar o gosto ruim da boca.

A dose, no caso de ingestão dos cogumelos inteiros, é de 4 ou 5 grandes por pessoa. Tenha em mente que a viagem é muito potente, e o risco de bad trip é alto. Quanto a riscos físicos, além dos possíveis acidentes (atropelamentos, quedas, etc.), há a possibilidade de um surto psicótico. Algumas pessoas jamais retornam dele. O motivo para isso é simples: a psilocibina e seus parentes ativam a psicose básica do sujeito. Ou seja, se você tiver delírios paranóicos, é porque vai ser paranóico se um dia enlouquecer. Se já for um tanto desequilibrado e faltar apenas um estalo para surtar, não é difícil que o uso de cogumelos provoque o surto.

23:00, dia 15.02.2002 - Comi cerca de 5 cogumelos grandes, dentro de um pão, e saí de casa junto com duas amigas que também haviam comido os docinhos. Íamos até a praça central de Garopaba/SC, pegar um ônibus para a ferrugem, um tipo de shopping etílico a céu aberto, freqüentado por mauricinhos e surfistas adolescentes da pior espécie. Má escolha, como verificaríamos mais tarde.

23:30 - Ao contrário de minhas expectativas, a onda chegou em apenas meia hora. Começou com uma sensação de anestesia pelo corpo, em especial nas pernas. A pessoa sente-se flutuando. Não sente cansaço, por mais que caminhe, corra ou pule - o que não siginifica que não vai sentir dores musculares no dia seguinte. Penso que esta característica da psilocibina era responsável pelos aparentes superpoderes do xamã. Ele poderia dançar a noite inteira, sem cansar. Correr, levar porrada. Segue-se à anestesia uma sensação de euforia. Rimos por nada.

24:00 - Esperando pelo ônibus, sinto os primeiros efeitos visuais. As sombras de algumas árvores se movem pela grama, e uma das casuarinas parece-se demais com uma lula gigante. Algum desconforto no estômago. Minhas amigas não param de fazer piadas, estou muito ocupado com os efeitos visuais, mas não consigo conter um sorriso permanente. Nas pernas, sinto como se mosquitos estivessem me picando, ou formigas caminhando por elas. Não estão.

24:30 - É difícil descobrir quanto custa o ônibus e também contar o dinheiro. As moedas todas se parecem. Não reconheço mais a estrada. Quando estou 100m adiante, vejo à minha frente os 100m anteriores da estrada. Difícil descobrir onde estou. A luz de um carro bate no pára-brisa, explode e meu campo de visão fica cheio de pedrinhas de luz. Desço do ônibus com certa dificuldade.

Tenho medo de atravessar a estrada, porque estou tendo alucinações e posso não ver um carro. Atravesso. Olhando para o céu, fico surpreso com o tamanho dele. As estrelas ficam mais brilhantes, e a cor é esquisita. Ao caminhar, sinto como se estivesse chapinhando num charco. Um sujeito nos manda subir na caçamba de sua caminhonete, ganhamos uma carona. No caminho, muita poeira. Fico em dúvida se estou alucinando algumas nuvens de poeira, se estou mesmo coberto de areia. É cada vez mais complicado dialogar.

1:00 - Chegamos ao lugar. Meu corpo parece mais alto e magro enquanto caminho. Alguém fala sobre uma rave, bem no momento em que passamos por um estacionamento. Abismado com a qualidade da luz e do espaço, digo que a rave deveria ser ali. Parece muito apropriado. A sensação de anestesia agora dá lugar ao que poderia-se definir como separação do corpo. Os sentidos não necessariamente comunicam mais o que está se passando, ou fazem isto de forma confusa. Por causa disso mesmo, os movimentos exigem cada vez maior concentração.

A luminosidade e as cores da avenida de terra cercada por bares é interessante. Pareço estar dentro do filme Delicatessen. Jeunet é, com certeza, o diretor de arte das viagens de cogumelo. Um guindaste de bungee-jump chama minha atenção. Tudo é novo, imenso. E tudo parece se encaixar no seu exato lugar, tudo parece apropriado e conveniente. Sentamos em um bar, mesa da rua. Não calamos a boca. Rimos. Enrolamos a língua. Toca um axé. Procuro um banheiro, e ao fazer isso, cruzo por caixas de som tocando Metallica. A trilha sonora parece muito adequada ao local em volta, escuro. Está fechado, então volto para a mesa e digo, rindo, que não consegui mijar. Indicam um banheiro e vou até ele, no setor em que toca Enter Sandman. O banheiro é infecto, mas acho ele bastante bonito, as cores da merda e do barro e as paredes sujas. A adequação da música ao local me deixa alegre, sinto-me seguro no universo.

Saio dali e compro uma cerveja. Kaiser Summer. No momento em que retiro o dinheiro do bolso para pagar, desço à terra e tomo consciência de como estão meus movimentos. Tiro o dinheiro do bolso como um mendigo o faria. Devagar, levantando a camiseta para expor o bolso - e a barriga por tabela. Fico preocupado, pensando que as pessoas devem estranhar isso. Volto para a mesa e converso com as meninas. Não é preciso terminar as frases para entendê-las. A cerveja brilha amarela, radioativa. Estou muito, muito feliz. Nunca estive tão feliz. Qualquer movimento dá prazer, por isso passo a língua pelos lábios e mexo os dedos. Penso em tomar cogumelos todos os dias da minha vida. Minhas amigas concordam. Uma delas jura não estar sentindo nada, mas nota-se a euforia dela. A outra me acompanha em uma discussão sobre os efeitos intelectuais do cogumelo. Digo que agora entendo do que as letras dos Doors falavam, a estética psicodélica toda. Segue-se o seguinte diálogo:

EU: Quando tomei ácido, olhei para uma concha e compreendi como funcionava a acústica dela, porque fazia aquele barulho.

ELA: E como funciona? Lembrou agora, com os cogumelos?

EU: Não. Eu teria de olhar para a concha, para compreendê-la. (Pego a garrafa na mão) No máximo, posso compreender o princípio da acústica das garrafas, porque tenho esta garrafa aqui.

Escrevo isto num caderninho da guria. A letra é uma mistura da minha letra atual com letras emendadas dos meus tempos de alfabetização no colégio. Um dos efeitos do cogumelo é a impossibilidade de entender letras e símbolos gráficos. Talvez seja conseqüência das alterações visuais. Cuidado com seu dinheiro.

A euforia torna difícil ficar parado. Tenho vontade de ir à praia. Uma das meninas - a que diz não sentir nada de mais - sai para ir ao banheiro. Não volta mais. Convido a outra para ir à praia, mas ela não quer. Sinto a mente cada vez mais descolada do corpo, e lembro de pensar algo como "estou me tornando totalmente simbólico". Talvez por ter lido recentemente "A Negação da Morte", em que Ernest Becker divide o ser humano em animal e simbólico. Enfim, quando respiro fundo, consigo "descer" para o corpo e manter um pouco a linha. Estou realmente preocupado com o que os outros estão pensando a meu respeito, porque tenho a impressão de estar falando muito alto e agindo de forma muito teatral. Minha amiga concorda. Um sujeito, que veio de carona na mesma caminhonete e sentou na mesa conosco, diz que parecemos alegres, mas normais.


Começa a chover. Forte. Todos se levantam, somos os únicos dois sentados em uma mesa na rua. Não sinto a chuva, mas começo a me sentir ridículo e comento que "somos aqueles caras no fundo do bar, podres de bêbados, que todo mundo fica criticando e desprezando". Estou, evidentemente, ficando paranóico. Decidimos caminhar, porque não conseguimos mais ficar sentados. Na primeira esquina, decido que PRECISO ir à praia, ver o mar, porque ele tem algo a me dizer. Minha amiga vai para outro lado.

A chuva engrossa, mas não me importo. Sinto-me orgulhoso de não ter medo da natureza, de andar em comunhão com ela. Ao chegar na trilha que dá na praia, o caminho muda constantemente. Parece muito mais longo. Receio me perder. Ao chegar na areia, os morros parecem enormes, bem mais altos do que são na realidade. O mar nasce das brumas escuras no horizonte. Há luzes em alguns locais sem casas. A água não avança para a areia, faz o movimento contrário e parece se desdobrar sobre si mesma. Estou realmente abismado. O mundo é imenso, infinito. Não há nada nem ninguém por perto. As pessoas do outro lado do mundo, na rua, não existem. A praia é um mundo separado, é algo além, a fonte de toda criação. Aquela praia. Resolvo caminha um pouco, e quando me viro, posso vislumbrar o mar batendo na areia, um morro atrás, uma floresta escura e então a rua, iluminada como uma disneylândia. Parece um cenário do jogo The Secret of the Monkey Island nas cores e formas das casas e paisagem. Ao longe, um dinossauro forma-se das brumas. Então, compreendo TUDO. Sim, agora eu sei porque estou aqui. O mar está me dizendo que sim, a vida tem um sentido, a seqüência mar, areia, floresta e cidade é um resumo da evolução. E eu estou pairando sobre ela. Eu sou deus.

Não, eu não sou deus. Sou parte dele e ele é parte de mim. Sou o mar, o vento, as montanhas, a floresta e a cidade. Tudo está em seu lugar, tudo tem um porquê, tudo é adequado e necessário. Amo tudo. Não sei o que fazer com tanta alegria. Quase choro. Minha vida está justificada, não há mais lugar para angústias existenciais.

Neste momento, lembro que estou NO MEIO DA PRAIA, DURANTE UMA CHUVARADA. A existência pode me amar, mas também pode mandar um raio na minha cabeça. Corro. Quando estou saindo da praia, caio na trilha para um bar onde tomei meu primeiro ácido. É de uns uruguaios, é meio hippie, tem redes e sofás. Resolvo ir pra lá. Fica dentro da floresta escura, mas não tenho medo. Sou um xamã, a floresta é minha amiga.

Na porta do bar, me dou conta de que sou um magrão encharcado e com os pés cheios de areia. Lavo os tênis na água que cai do telhado. Quando piso dentro do lugar, um cachorro late. Um pastor preto. É mescalito. Não, não é. Mas os cachorros, uns 3, me olham de maneira esquisita, cheiram. O bar brilha com luz intensa. Peço uma cerveja. Custa R$ 3,00, eu dou duas notas de 10, mas o sujeito do bar é legal e me devolve direitinho. Percebo que é muito fácil me roubarem. Fico meio desconfiado do sujeito ao lado. Puxa papo, diz que é de Porto Alegre e está em Ibiraquera. Suspeito que seja um foragido da polícia. Do outro lado do balcão, há uns hippies. Mas, na verdade, são piratas. O chefe deles é ruivo e tem feições norueguesas. Fala algumas frases de efeito e me manda ficar à vontade. Estou satisfeito. Feliz. As pessoas do bar cuidam de mim.

Demoro para tomar a cerveja, ou acho que demoro. O tempo se alarga muito sob efeito dos cogumelos. Não tenho idéia de que horas sejam, parece ser umas 3 e meia. De repente, a deusa indiana Kali aparece perguntando se a cerveja é minha. Hesitante, respondo que sim. Kali é má. Ela quer abusar de mim. Todos querem. Quero sair correndo, mas começo a me achar imbecil e tomo o resto da cerveja. Até porque, o foragido pode desconfiar. Quero esperar ele ir embora. Não vai, então vou logo embora, deixando Kali por lá.



Andando na rua, todos olham para meu estado deplorável. Olham mesmo? Não tenho como saber, mas isto me incomoda muito. Quase esbarro em mesas e carros. As pessoas naquele lugar são malditos mauricinhos horríveis. Não conseguem perceber, como eu, a existência, o sentido da criação, enfim, tudo. Vivem inconscientemente. Penso em matá-los, mas resolvo me refugiar na praia, onde não posso fazer mal a ninguém e ninguém pode me alcançar. O mar é meu amigo. A floresta também. Eu sou um xamã. Mas desta vez, a praia e todo o universo parecem imensos demais. Sinto frio. Alguns arbustos parecem guerreiros indígenas.

O fato de os arbustos parecerem guerreiros explicaria as tais conversas dos xamãs com espíritos e animais míticos? Não admira que índios e acadêmicos de harvard tenham endeusado os cogumelos, a experiência psicodélica. A psilocibina dá a impressão de ARROMBAR os filtros que o cérebro usa para não submergir em uma profusão de estímulos e sensações. O sujeito pensa mais rápido, e não por lógica, mas intuição. Não sente cansaço. Compreende coisas apenas olhando para elas. Tem respostas. É mágico, é poderoso. O que mais poderiam pensar índios sem nenhum refinamento acadêmico, além de que haviam passado para outro mundo, o mundo dos espíritos e guerreiros ancestrais? Um mundo terrível, mas imenso, mas ao mesmo tempo familiar, aconchegante?

A experiência psicodélica suscita uma questão intelectual importante sobre epistemologia: até que ponto nossos sentidos são uma forma razoável de conhecer o mundo? Tudo o que eu vi sob efeito da psilocibina EXISTIA. Quem poderia negar? Eu FALEI com o mar, eu VI a criação e a evolução. Se uma substância qualquer pode confundir assim os sentidos, por que uma variação normal em nosso cérebro não poderia nos fazer ver coisas que não existem o tempo inteiro? Pode-se confiar realmente na realidade que vemos? O equilíbrio químico do cérebro é, afinal, delicado. Não seria tudo um grande embuste?

Neste instante, percebo o quanto a civilização é imbecil, como ideologias e culturas inteiras podem ser baseadas em erros de interpretação da realidade ou de realidades induzidas por drogas. Há alguma certeza? Há?

E todo caso, o mar ruge ameaçador, como o vento e a chuva, eu estou perdido dentro deste meu novo mundo de símbolos e começo a temer ter surtado com uma dose excessiva. A idéia de ficar com os sentidos confusos o resto da vida me inspira um terror verdadeiro. Decido ficar sentado e não fazer nenhum movimento, esperar até de manhã, para o efeito passar. Quero, mais do que tudo na vida, sair da viagem. Quero voltar ao meu corpo, ao mundo real. O medo é avassalador. Além de qualquer explicação. Tenho medo que meu ego se dissolva em símbolos e eu nunca mais volte. Sinto culpa, prometo nunca mais usar drogas e expiar todos os meus pecados e contar tudo para a minha mãe, quando voltar a mim.

No fim, algumas racionalizações me convencem que é melhor ir para casa, onde ao menos minha mãe pode me encontrar e cuidar de mim. Resoluto, começo a caminhar os 10km que me separam de casa, debaixo de chuva e cheio de areia. Num boteco de quinta categoria, encontro as duas amigas perdidas. Fico feliz, porque falar com outras pessoas me prende ao corpo e impede meu ego de se dissipar. Mas elas estão entornando cachaça e gritam e riem e parecem realmente sensuais. A galera que joga sinuca delira, e pelo jeito elas estão fazendo a alegria deles há um bom tempo. Só consigo balbuciar "que bom que eu voltei".

Uma delas havia tirado a blusa em público, mas neste momento estava vestida. Tomava chuva de propósito, e o dono do bar olhava para elas com pena. Comecei a me preocupar com a atitude feminina agressiva delas em meio a uns estivadores, e também queria ir embora. Num rasgo de lucidez, peguei o número de telefone de uma das duas e fui embora, dizendo "desculpem, meninas, mas eu não posso cuidar de vocês". Senti-me um xamã fracassado por isso. E, na verdade, precisava eu mesmo de tanto cuidado quanto elas. Andei um ou dois quilômetros e comecei a sentir frio. Saí da chuva, tremendo, mas dei graças a deus por ter voltado da viagem. Depois de algum tempo, voltei para procurar elas, bastante preocupado. Estavam melhores do que eu. Fomos embora. Pensei que fossem umas cinco da matina, mas eram apenas 3:00.