O Supremo Tribunal Federal liberou o aborto em caso de anencefalia. O argumento é o de que não haveria aborto uma vez que não há vida. O caso não vem a ser, obviamente, um ganho do movimento de mulheres, mas sim, uma evidência do enraizamento da cultura machista em todas as esferas da sociedade.
O maior trunfo do mundo masculino foi a descoberta do poder e seus mecanismos. A história do homem é o retrato de sua dominação sobre as outras espécies e sobre o sexo oposto. O poder foi, definitivamente, o mecanismo através do qual o homem perpetuou-se no topo da espécie. Assim, a tomada do poder pelas mulheres significa para muitos sinônimo de libertação e igualdade. Não percebem, ao invés, como isso significa a confirmação de sua própria desigualdade, uma vez que não buscam trilhar seus próprios caminhos e fortalecem o sistema dominativo que por tanto tempo a subjugaram.
O cérebro, ou mais precisamente, a cabeça sempre foi a melhor metáfora do poder. Michel Foucault, ao buscar mecanismos e estruturas do poder, usa a metáfora da cabeça humana. Os guerreiros ou mesmo os reis da Idade Média arrancavam a cabeça do inimigo como sinônimo de aniquilamento de seu poder. A cabeça humana é o real símbolo do poder de um homem e a sua ausência configura, assim, a sua incapacidade de viver como os outros. Por isso o argumento do bebê anencefalo convence, não porque o aborto esteja ganhando campo de tolerância, mas porque a nulidade de um ser enquanto homem é que é insuportável.
A conclusão sobre esse acontecimento não poderia ser outra que não a retomada dos valores antigos, ao contrário de sua elevação. O aborto precisa ser um direito da mulher, e não mais uma conquista do universo masculino. Além disso, muitos excepcionais são felizes e seriam mais ainda caso não houvesse preconceitos como esse que o STF acaba de corroborar.