As teorias neoliberais quase sempre se dizem herdeiras de um sólido conhecimento, devidamente exposto pelos autores clássicos. Nesse caso, os princípios já estariam muito bem estabelecidos e às futuras gerações, bastaria apenas adaptar o bom senso dos antigos pensadores as novas realidades.

Será que é assim mesmo? Ao examinar as obras de Adam Smith e de David Ricardo, de fato notamos que muitas de suas afirmações continuam bastante atuais. Só que suas conclusões nem sempre favorecem a “nova ortodoxia” política e econômica.

Um assunto muito discutido atualmente é a questão da terceirização externa ou “exportação de empregos” de países ricos para países onde os salários são mais baixos. O problema quase sempre é discutido a parte da questão da movimentação de capitais. Mas para Adam Smith não deveria ser assim.

De fato na sua clássica “Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações”, no capítulo X, na parte II, intitulada “Desigualdades ocasionadas pela política econômica européia”, podemos ler que: “Seja o que for que obstrua a livre circulação do trabalho de um emprego para outro, impede também a livre circulação de capitais”. (1)

Nesse caso, fica evidente que Smith condiciona a prosperidade geral, à liberdade simultânea do capital e do trabalho de modo que a concorrência otimize o mercado. Vemos a todo o momento, a defesa da “desregulamentação” dos fluxos de capitais. Não vemos o mesmo esforço por parte dos economistas neoliberais na defesa da abolição das fronteiras nacionais, no que se refere aos trabalhadores.

Smith observa de forma crítica que: “As leis das corporações (de oficio), porém, restringem menos a livre circulação do capital de um local para outro do que a do trabalho; é sempre muito mais fácil a um rico comerciante obter privilégio de comerciar numa cidade corporativizada do que a um pobre artífice trabalhar nela”.(2) Troque a expressão “leis das corporações de oficio” por “leis de imigração” e todo tipo de registros profissionais e autorizações de trabalho e teremos um retrato exato da nossa época.

Em outro trecho, Smith observa ainda que “Para conseguirmos um trabalho bem feito (nessas cidades), somos obrigados a procura-lo nos subúrbios, onde os trabalhadores dependem apenas de si mesmos, e somos depois forçados a passar o produto para dentro da cidade da forma mais discreta possível”. (3)

A interpretação que normalmente se faz é a de que qualquer proteção especial ou privilégio concedido aos trabalhadores numa região, prejudica a economia como um todo. Mas também podemos interpretar que nessas condições, Smith admite que os trabalhadores dos “subúrbios” estão sendo prejudicados pois, apesar de executarem um trabalho melhor, não tem direito à remuneração dos membros das corporações de ofício.

E nesse caso, quando os EUA ou a Grã-bretanha “exportam” empregos, por meio das novas tecnologias, para a Índia ou a China, não estariam seguindo um raciocínio clássico do mestre. Isso porque que não são os “empregos” em si que são exportados e sim apenas o “trabalho”.

Os salários e benefícios dos trabalhadores dos “subúrbios” globais continuam os mesmos, as tecnologias de transportes, informação e telecomunicações apenas eliminam o inconveniente de ter que fazer entrar o produto final nos mercados consumidores do primeiro mundo “da forma mais discreta possível”.

Outro assunto complexo é a questão da utilização das tecnologias substitutivas de mão-de-obra. Nesse caso podemos encontrar várias observações interessantes feitas por David Ricardo no seu não menos clássico “Princípios de economia política e tributação”.

No capítulo XXXI, intitulado “Sobre a maquinaria”, o autor se propõe a desenvolver ”algumas investigações sobre a influência da maquinaria nos interesses das diferentes classes da sociedade - assunto de grande importância, que parece jamais haver sido suficientemente estudado para chegar-se a quaisquer resultados satisfatórios“.(4)

Logo de início, Ricardo admite que sua opinião sofreu “considerável mudança” em relação ao que pensava antes. Embora não duvide dos benefícios da tecnologia para o capitalista, quanto aos trabalhadores: “Eu acreditava que nenhuma redução nos salários ocorreria, pois o capitalista teria a possibilidade de procurar e de empregar a mesma quantidade de mão-de-obra que anteriormente, embora ele talvez precisasse utiliza-la na produção de uma mercadoria nova ou, de alguma forma, diferente”.(5)

Segue-se o argumento clássico do ciclo virtuoso da redução dos preços, seguido do re-investimento do capital que acaba gerando novos empregos. O que o fez mudar de idéia? Ele ficou “profundamente impressionado com a verdade da observação de Adam Smith, segundo a qual ‘o desejo de alimento é limitado, em cada homem, pela estreita capacidade do estomago humano, mas o desejo de conforto, de ornamentos da casa, de roupas, de aparelhagem e de mobiliário parece não ter limite ou fronteira certa’” (6)

Isso o leva a reafirmar que as vantagens da mecanização existem, para os proprietários de terra e para os capitalistas. “Estou convencido, contudo, de que a substituição do trabalho humano pela maquinaria é freqüentemente prejudicial aos interesses da classe trabalhadora”.

O grande mestre acabava de descobrir o que Ronald Reagan e George W. Bush ainda não parecem ter aprendido. O lucro obtido com os aumentos de produtividade, e ainda mais incrementados com reduções de impostos, não são necessariamente reinvestidos em produção e geração de empregos. Os ricos sempre terão a opção de gastar seu dinheiro “com bens de luxo (ao invés do) sustento de serventes”. (7)

Logo depois, Ricardo acrescenta: “As afirmações que fiz não levarão, espero, à conclusão de que o uso da maquinaria não deve ser encorajado. Para elucidar esse princípio, eu supus que a maquinaria aperfeiçoada é repentinamente descoberta e usada extensivamente. Mas a verdade é que essas descobertas são graduais e influem mais na determinação do emprego do capital que é poupado e acumulado, do que no desvio de capital de suas presentes aplicações”. (8)

E acrescenta que “As máquinas e mão-de-obra estão em constante competição, e aquelas, freqüentemente, podem não ser empregadas até que o trabalho se torne mais caro”.(9)

Concluiremos, portanto, que para Ricardo, três coisas evitavam maiores prejuízos às classes trabalhadoras de seu tempo:
• Os avanços tecnológicos nunca são repentinos e sim lentos e graduais.
• Por isso mesmo, sua influencia se dá mais nas decisões que envolvem o futuro das aplicações do capital e;
• As máquinas em geral são muito caras.

Podemos concluir que se essas condições não estiverem presentes, o que é exatamente o que ocorre em nossa época de avanços tecnológicos em velocidades vertiginosas, decisões sobre investimentos cada vez mais á curto prazo e máquinas cada vez mais baratas, valeria a conclusão do próprio Ricardo de que:

“A opinião mantida pela classe trabalhadora, de que o emprego da maquinaria é freqüentemente prejudicial aos seus interesses, não é fundada em preconceito ou em erro, mas conforme os princípios corretos da economia política”. (10)

Parece que se esses grandes patriarcas do liberalismo econômico pudessem estar vivos ainda hoje, não reconheceriam com tanta facilidade as idéias que são disseminadas como suas.
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Notas:

(1) “Os Pensadores” – Abril cultural – Vol. XXVIII – Adam Smith e David Ricardo – pág. 116
(2) Idem
(3) Idem, pág. 112
(4) Idem, pág. 339
(5) Idem
(6) Idem, pág. 340
(7) Idem, pág. 343
(8) Idem, pág. 344
(9) Idem.
(10) Idem, pág. 342