Trata-se, como muitos outros termos/palavras/leis/atitudes e ações, de mais uma forma simplista de encarar os fatos. Objetivamente os bóias-frias também podem ser descritos como pessoas que vivem no campo e que por viverem no campo têm ou tiveram outro tipo de formação, menos intelectualizada (quase sempre quase nada intelectualizada). São analfabetos ou semi-analfabetos sem-terra, sem-teto, sem-trabalho - que uma coisa leva outra ? sem-escola, sem-comida, sem roupas, sem direitos. E para quem não sabe o termo bóia-fria vem do hábito desses trabalhadores se alimentarem de marmita, trazida bem cedo e consumida fria, no campo - com sorte, debaixo de alguma sombra. Assim, bóia-fria é aquela pessoa que não tendo escolha, acaba trabalhando na terra ? dos outros (?!) -, dentro de regras pré-estabelecidas e não discutíveis no contrato de trabalho, que muitas vezes engloba comissão pelo emprego (à que intermediou a contratação), aluguel pelo alojamento e a obrigatoriedade de utilizar um mercado específico para consumo durante a estadia.

Em Piracicaba, pólo de produção de cana-de-açúcar no estado de São Paulo, os bóias-frias começam a chegar no mês de abril. Vêm do norte, do nordeste e do centro-oeste em sua maioria. Poucos chegam de regiões vizinhas, descendentes de outros emigrantes que receberam a herança do sem. As usinas contratam esses trabalhadores por produção. Durante o contrato eles têm direito a alojamento, condução e comida mas, quando a safra termina... bom, eles têm que se virar.

É comum ao entrar na cidade, vermos homens, mulheres e adolescentes sujos de cana queimada, vestidos com calças, saias e blusas de manga longa mesmo quando a temperatura está alta. Todos usam lenços e/ou chapéu protegendo a cabeça do sol forte que não dá trégua em tempos de seca.

As plantações se estendem por todas as entradas e saídas da cidade. Chove cinza em época de queimada/cai dinheiro nos bolsos dos usineiros.

Para esse ano, segundo José Coral, presidente da Afocapi (Associação dos Fornecedores de Cana de Piracicaba), a perspectiva é de que sejam contratados 45 mil trabalhadores rurais distribuídos na macrorregião de 33 municípios, onde estão instaladas 19 usinas de açúcar e álcool. A expectativa é de um crescimento de 8% a 10% na produção, que foi de 24,5 milhões na safra passada.

Ainda que esses valores sejam calculados em toneladas de produção, é possível notar aqui a presença da fórmula que acompanha grande parte das injustiças sociais: pouca gente com muito dinheiro dominando muita gente com pouco dinheiro. Muita gente com pouco dinheiro trabalhando muito mais para conseguir mais um pouco de dinheiro. Muita gente trabalhando muito mais para conseguir mais um pouco de dinheiro fica sem tempo para....