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Revista Nação Brasil Número: 142


Baixada Fluminense: Violência e Poder

Com a volta da democracia os donos de jornais, rádio e televisões orientaram seus editores para que a vida nas favelas fosse associada ao conceito de gueto onde vive o lócus do mal.

Neste âmbito o conceituado Jornal do Brasil, em 18 de fevereiro de 1994 publicava o editorial ?Vacilou, Dançou!?  que podemos considerar o molde de um estilo de jornalismo ruim, racista e, sobretudo, reacionário. Um estilo cujo lead pode resumir-se às seguintes frases: (...) De dentro dos morros para fora se irradia nova ética de sangue e violência! (...) Das favelas de onde se espraiam os acenos da marginalização (...)  Tiroteios, guerras de quadrilhas, desrespeito á propriedade particular...(...) Os favelados serão maioria, se o fluxo não for detido!

Afinal, esta é a grande preocupação da mídia e das elites: deter uma potencial maioria que cresce nas favelas e por isso já não é mais suficiente mantê-la á margem da sociedade e da própria democracia. É preciso uma guerra de baixa intensidade para eliminar o ?excedente?.

Foi nesta óptica que os grupos de  poder, que exercem o controle político do Estado, voltaram a legitimar a prática da violência, burlando silenciosamente as leis do Estado de Direito. Assim depois dos ?esquadrões da morte? da época da ditadura, vieram os ?grupos de extermínios?, a seguir foi a vez dos ?matadores?. Enfim como escreveu o professor José Cláudio Souza Alves em seu livro Dos Barões ao Extermínio  ?...a canalha e a barbárie continuam presentes no dia-a-dia do Brasil?.

O livro de José Cláudio é uma profunda análise sobre a ?história da violência na Baixada Fluminense?, por isso ele mereceu ser capa da edição 142 da Revista Nação Brasil e objeto de uma longa e interessante entrevista que publicamos, na esperança de poder abrir na esquerda (ou o que sobra dela) o debate sobre a questão da violência e suas interligações com o mundo da política e do empresariado.   (A. Lollo)

A Entrevista de Achille Lollo

RNB ? Em que época você começou a escrever o livro ?Dos Barões ao Extermínio?e com qual objetivo político?

José Cláudio Souza Alves: «Em 1993 eu tinha lido o livro de Mike Davis, ?Cidade de Quartzo?, onde ele vai analisar o passado de Los Angeles e reconstruir a lógica de poder dos grupos políticos que governaram a cidade. Eu fiquei muito impressionado com a metodologia de análise de Mike Davis que, inclusive, é um intelectual de esquerda.

Este livro ajudou a costurar minha idéia de estudar a violência na Baixada Fluminense, onde eu comecei a militar em 1983, primeiro na Igreja Católica, depois nos movimentos de bairro e no PT do qual sou um dos fundadores naquela região. Porém, tomei a decisão de estudar a violência na Baixada quando ocorreu a chacina em Vigário Geral, em 30 de agosto de 1993, onde eu morava naquela época.

Tudo se encaixou. Por isso o objetivo do livro é entender como se reproduzia em uma região como a Baixada Fluminense o conceito e a prática da violência. Para ter uma idéia, hoje, a cidade do Rio de Janeiro baixou seu nível de violência que varia entre 43-45 mortes por 100.000 habitantes. Por sua parte, na Baixada Fluminense, há mais de duas décadas este nível permanece num patamar em torno de 74 e 76 mortes por 100.000 habitantes».

RNB ? Quando você fala em mortes se refere a assassinatos e homicídios?

José Cláudio Souza Alves: «Sim, estudei os homicídios dolosos que nas estatísticas e nos relatórios do Governo do estado ou são escamoteados ou não são verdadeiros. Quando se começa a estudar a realidade da violência, que é muito brutal, se descobre, também, que existem inúmeras formas de se esconder os números».

RNB ? A Baixada Fluminense sempre foi uma região onde o poder político legitimava a violência e vice-versa. O filme sobre Tenório Cavalcanti é um exemplo. Como você trabalhou este contexto ao longo do tempo e do espaço?

José Cláudio Souza Alves: «Tentei entender a região e descobri que esse padrão de violência absoluto vem se mantendo porque foi construído ao longo do tempo em função da estruturação do poder político local. Por isso a existência dos matadores de aluguel, dos grupos de extermínio não se dá apenas no período da Ditadura Militar.

Na realidade podemos afirmar que na Baixada Fluminense há uma dramática tradição de violência organizada que começa muito antes, já no fim do Período Colonial, para depois se afirmar, no início dos anos 30, quando figuras políticas como Tenório Cavalcanti, Getúlio de Moura, construíram a sua base de poder político na Baixada como se o poder fosse um produto para sua pequena empresa política calcada na estrutura da violência.

Ao entender a lógica histórica da violência na Baixada podemos entender por que, hoje, muitos promotores públicos dizem que na Baixada os matadores estão no poder».

RNB ? Por que muitos apontam que o ex-governador, Marcelo Alencar, e o prefeito de Caxias, Zito (ambos do PSDB) são donos de poderosos clãs políticos que estendem seus tentáculos mafiosos em toda a Baixada?

José Cláudio Souza Alves: «No livro eu tento mostrar que para se eleger, em 1994, Fernando Henrique legitimou uma aliança política que não se limitou só a Marcelo Alencar, mas estreitou-se também com figuras como Zito e Joca. Este último, misteriosamente assassinado. Eu tento mostrar como aconteceu esta costura, uma vez que a Baixada Fluminense com os oito municípios da Região Oeste (Duque de Caxias, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Japeri, Queimados, Belford Roxo, Nilópolis e Mesquita) corresponde, hoje, a quase 24% do eleitorado do Estado do Rio de Janeiro. Juntando este as prefeituras de Guapimirim, Magé, Paracambi, Itaguaí, a Baixada Fluminense, sempre concentrou, ao longo da história do Brasil, um dos maiores currais eleitorais.

Agora, eu acho que a costura disso tudo começou em 1993 no início do Governo de Marcelo Alencar no estado do Rio de Janeiro, quando o PSDB estava em Nova Iguaçu com Nelson Bornier, o PL e o Joca controlavam Belford Roxo e Zito era vereador em Caxias, para depois se eleger deputado estadual em 1994.

Foi nesse cenário que o PSDB  começa a articular a manutenção do poder na Baixada recorrendo a pessoas acusadas de estarem diretamente envolvidas com o crime organizado ou com os grupos de extermínio na região».

RNB ? Houve, de fato, algumas prisões decretadas pela justiça contra Zito?

José Cláudio Souza Alves: «Eu entrevistei a promotora Tânia Maria Sales Moreira, responsável pelo Ministério Público, na cidade de Duque de Caxias até 1998. Ela confirmou que Zito foi preso duas vezes antes da campanha eleitoral de 1994, quando ele é preso pela terceira vez por conta do assassinato de um subsecretário de serviço público na cidade de Duque de Caxias.

Na última vez em que foi preso ele estava a caminho do aeroporto para receber o Fernando Henrique Cardoso e levá-lo ao seu último comício. Lembro que em toda a cidade havia outdoors com o trio: Zito, FHC e Marcelo Alencar, portanto sua prisão teria sido um desastre para FHC. Talvez, por isso Zito ficou detido só algumas horas uma  vez que saiu um hábeas corpus para ele subir no palanque com FHC e Marcelo no final do comício.

Depois de se eleger, FHC declarou publicamente que queria o PSDB com cheiro de povo, enfim um partido popular construído com homens como Zito. Uma aliança que se repete ao longo da história do Brasil entre os notáveis ? representantes políticos das elites dominantes ?  e a escória da política que lhe traz benefícios eleitorais».

RNB ? Parece ficção, ma a pequena empresa política de Zito calçada na estrutura da violência, agora virou um holding na Baixada conseguindo a eleição da viúva do Joca, de seus familiares, a distribuição de cargos entre os partidos e até o PT parece que entrou no ?esquema?. Afinal, tudo isso é ficção ou verdade?

José Cláudio Souza Alves: «As estatísticas dizem que Zito movimenta meio milhão de votos uma vez que ele se reelegeu em Duque de Caxias com 82% dos sufrágios. A esposa, Narriman Zito ? que pediu filiação ao PT ? é prefeita em Magé. O irmão, Valdir Zito, é prefeito de Belford Roxo e a filha foi eleita deputada estadual em São João de Meriti.

Apesar de Joca ter sido assassinado nada mudou, pois a viúva se reelegeu com o lema ?Maria Lúcia é Joca?, então Nelson Bornier, Zito e Maria Lúcia se tornam a nova base de entrada do PSDB de Marcelo Alencar nos três maiores colégios eleitorais da Baixada: Belford Roxo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu.

Por isso, o programa Baixada Viva e depois o projeto de Despoluição da Baía de Guanabara transformam a empresa política de Zito em Holding ao vincular as obras de urbanização à política eleitoral. Por exemplo os outdoors do Baixada Viva eram pagos pelo próprio Zito. Foi neste âmbito que na relação Zito-Marcelo Alencar entra também o governo federal de FHC, visto que a Baixada Fluminense é uma região politicamente expressiva no cenário nacional.

Minhas pesquisas evidenciam que as provas cabais que os promotores apresentam ao longo do tempo desaparecem ou ficam minimizadas e nada acontece com os suspeitos de assassinatos.»

RNB ? Durante a Ditadura os grupos de extermínio, chamados esquadrões da morte, faziam o ?trabalho sujo? para a PM e o Exército. Infelizmente, a volta da democracia não levou a desmobilização destes grupos. Qual é a situação na Baixada? A matança de jovens negros continua?

José Cláudio Souza Alves: «A Baixada Fluminense, com suas cidades-dormitórios, o excesso de mão-de-obra barata e as indústrias de fundo-de-quintal são o suporte para a grande metrópole, Rio de Janeiro. Sem Baixada não haveria Rio Maravilha, Rio Solar e Zona Sul.  O jornalista Zuenir Ventura chamou este grande binômio de ?Cidade Partida?. Mas eu não concordo, porque se trata de duas realidades conectadas, também, no sistema de violência organizada, quando com a formação da PM, em 1967, estreou o ?esquadrão da morte para caçar comunistas?.

Este contexto, permitiu à ditadura de livrar-se dos opositores políticos com mais facilidade e silêncio, além de criar um útil sistema de alianças políticas locais de que tanto Arena quanto setores do MDB se beneficiaram.

Praticamente foi com os Esquadrões da Morte que a Ditadura conseguiu reconfigurar o mapa político da Baixada.

A partir dos anos 80, na Baixada e no Rio de Janeiro, os grupos de extermínio sofrem a chamada ?autonomização?, isto é: os grupos passam a ser compostos não só por policiais militares, mas também por cidadãos, pessoas comuns que passam a ser arregimentadas para realizar ?operações de limpeza? nos diferentes bairros suburbanos ou favelas. É neste contexto que o número de ?matadores? aumentou, apesar deles manterem sempre uma vinculação com a Polícia Militar.

RNB ? Explique melhor o funcionamento do vínculo entre matadores, PM e quem os financia?

José Cláudio Souza Alves: «Em um primeiro momento era o Estado que, através do aparato da Polícia Militar, fazia a arregimentação dos matadores. 

A seguir os diferentes grupos se ligaram às novas máfias políticas e vão se autonomizando em relação ao aparato policial, apesar de manter um vínculo com as estruturas de comando e da inteligência que lhe proporcionam proteção e cobertura.

Enquanto isso parcelas do poder político dão sustentação a uma parte do empresariado (do pequeno ao grande) que paga os grupos de extermínio para ter proteção ou fazer a dita ?limpeza de área? ou controlar áreas onde eles financiaram em campanhas eleitorais para governador, prefeito, deputado ou vereador.

Uma vez eleitos, esses políticos ficam calados, porque dependem da mesma base eleitoral, onde atuam os grupos de extermínio que são financiados pelos mesmos empresários que investiram nas campanhas eleitorais».

RNB ? Com a chegada do narcotráfico nas favelas da Baixada aconteceram mudanças?

José Cláudio Souza Alves: «A principal mudança se deu nos anos 90 quando se registrou  um duplo fenômeno: os líderes dos grupos de extermínio passam a ser os novos políticos da região e, facilmente, chegaram ao poder na Baixada.

Desta maneira não precisam mais de intermediários políticos.  Eles mesmos se transformam em políticos que ? no momento em que o narcotráfico se espalhava nas favelas e subúrbios da Baixada ? começaram a oferecer a segurança pública como se esta fosse um bem caro demais para as regiões pobres da Baixada.

Esta promessa, rapidamente foi uma credencial para ganhar votos. Juntaram a isso todas as práticas do populismo, tais como distribuir comida, introduzir serviços na área de saúde e farmácias, desviar verbas públicas para promover novas áreas comerciais e implantar escolas privadas também.

Enfim serviços, realizados com o financiamento público que viram a grande estrutura de clientelismo eleitoral.

Na Baixada havia regiões com um índice elevado de roubo, furtos e assalto, principalmente de comerciantes. Então quando esta nova ?classe política? chega ao poder logo realiza a eliminação dos pequenos marginais, nem sempre são bandidos profissionais, mas que na maioria são jovens negros. Não há um enfrentamento com o narcotráfico para disputa de áreas ou de influências».

RNB ? Explique porque a partir dos anos 90 os grupos dos matadores se preocupam mais com a construção de suas ?empresas políticas? na Baixada, enquanto setores da PM do Rio de Janeiro praticam massacres (Candelária, Acari, Vigário Geral)  sem nenhum disfarce?

  José Cláudio Souza Alves: «É necessário explicar que o produto que as ?empresas políticas? dos matadores da Baixada oferecem é a violência organizada dentro de padrões reservados de eliminação seletiva. Então, com a introdução dos cemitérios clandestinos falta a prova visual desta atividade.

O problema é que na Baixada, como no Rio de Janeiro,  os índices de homicídios são os mesmos, mas a efetiva investigação destes crimes que ocorrem na Baixada é apenas 7,8%. Por exemplo as delegacias de Campo Grande investigam só 1,03% do total de homicídios.

Nestas condições o julgamento se torna difícil porque o promotor público precisa, antes de tudo, de testemunha do assassinato ou de provas cabais que identifiquem o responsável. É neste percurso que a estrutura das ?empresas políticas?  dos matadores entram em ação despistando provas, intimidando ou até fazendo desaparecer testemunhos. Praticamente a partir da década de 90, no momento em que eles descobrem os meios para chegar ao poder, os matadores e suas estruturas operacionais utilizam táticas mais silenciosas e mais sofisticadas. Desta maneira desvia-se as denúncias da mídia.

Enquanto isso, nos anos 90, a violência policial explode no Rio de Janeiro e este é outro fenômeno. Com as chacinas da Candelária, Vigário Geral, Acari temos a fase dos massacres institucionais espetaculares onde a polícia atua sem nenhum disfarce. Não é mais o policial mascarado que atuava nos esquadrões da morte que usava o gorro quando devia tirar o preso da cela e matar a noite jogando o corpo em uma vala comum.

Não! Quem matou em Vigário Geral era a polícia uniformizada, com nome e instintivo que vai para a rua e vai cumprir as execuções sumárias. E somente cinco de um total de 40 policiais denunciados pelo Ministério foram condenados, dois cumprem pena e três estão soltos. Não há elementos específicos mas tudo indica que setores da Polícia Militar, ao retomar o papel de execução sumária quiseram dar um recado à sociedade. Inácio Cano do Iser, e Marcelo Freixo da Ong Justiça Global fizeram estudos nesta área, abordando também a situação das penitenciárias e as execuções sumárias cometidas.

Em 2002, o  jornal ?O Dia? revelou que a Corregedoria da PM denunciou cerca de 300 policiais como participantes de grupos de extermínios. Este é um elemento positivo, mesmo assim o aparato ilegal que pratica a eliminação sumária continua atuando.

Isso também funciona para o lado do tráfico de drogas».

RNB ?É evidente que a prática do matador é a execução do pequeno delinqüente. Neste sentido, como se relacionam os novos clãs mafiosos da Baixada Fluminense (muitos dos quais estão ligados aos grupos de extermínio) como se relacionam com o narcotráfico e os bandos de seqüestradores?  

José Cláudio Souza Alves: «A justiça criou um processo de investigação, sobretudo, a partir de uma Comissão Especial de Investigação sobre Crimes na Baixada e à frente estava esta promotora que eu mencionei, a Tânia Maria Sales Moreira. E antes dela também tinha um promotor público na quarta vara criminal lá em Nova Iguaçu, José Pires Rodrigues. Todos eles chegaram à conclusão que estes grupos de extermínio jamais, em nenhum momento, tocam, arranham sequer a estrutura organizada, pesada do crime mesmo. Como você falou, os grandes traficantes, os grandes assaltantes, nunca foram tocados».

RNB ? E com os bicheiros, que tipo de relação existe?

José Cláudio Souza Alves: «Diria de extremo respeito. A contravenção, na verdade é a cúpula do crime organizado.

De fato até a ditadura, com sua moral patriótica, sequer arranhou a estrutura dos bicheiros, pelo contrário manteve intacta a estrutura do jogo do bicho porque eram estes que davam as informações das ruas. Qual era o melhor serviço de inteligência que poderia dar informações diárias sobre quem passava em certas ruas ou praças das principais cidades de todo o Brasil?

Ainda hoje fica difícil avaliar todas as conseqüências que  surgiram com o estreitamento da aliança estratégica entre a contravenção e o Estado na época da ditadura militar»

RNB ? Você se refere à estrutura vertical do crime organizado que através da corrupção criou um poder paralelo no Brasil a partir do Rio de Janeiro?

José Cláudio Souza Alves: «Não! Essa é a tese que a Rede Globo construiu para justificar o assassinato do jornalista Tim Lopes.

Estou apontando para algo mais grave: é o próprio Estado que se constituiu no Brasil, que apareceu na Baixada, legitimando a vinculação com o crime e com a violência enquanto elementos ocultos empenhados na defesa do próprio Estado.

Não é o crime organizado que corrompeu as instituições. É, sim, a relação histórica que Estado, como poder público, construiu com o crime para promover formas de segurança necessárias para a manutenção da ordem em determinados momentos políticos.

É neste contexto que setores do aparato policial, da justiça, os políticos profissionais, os empresários, os comerciantes se relacionam com as estruturas do crime e se beneficiam dela, promovendo o crescimento dinâmico da estrutura do crime organizado dentro da estrutura porosa do Estado.

A corrupção é, apenas, uma forma de pagamento para serviços prestados. O problema é o tipo de relação que foi costurado entre setores do poder e crime organizado».

RNB ? Hoje, o narcotráfico entra nesta relação?

José Cláudio Souza Alves: «Hoje o problema é mais complexo, uma vez que há cada vez mais políticos que através do narcotráfico conseguem entrar nas favelas e fazer obras em troca de votos.

Assim o tráfico dá cobertura à campanha eleitoral para esse prefeito que já foi um ex-matador, vai fornecer ou indicar cabos eleitorais para ele, vai realizar festas na favela para ele e, antes de tudo vai impedir que candidatos da oposição ou concorrentes entrem na favela que se transforma em um curral eleitoral desse ex-matador cuja eleição é legitimada pelo Estado (polícia, justiça, justiça eleitoral, mídia, igrejas evangélicas etc). Conclusão: não há poder paralelo. É o próprio Estado que legitima a estrutura do crime organizado.

Alterar esse mecanismo exige uma vontade de transformações radicais, que o Estado, hoje, não tem, porque isto significa cortar a própria carne.

Os poucos que tentam fazer isso sofrem duras conseqüências. É risco de vida mesmo. 

É grande o número de casos de assassinatos de promotores públicos, de detetives, de políticos que passam a fazer um trabalho que se contrapõe a esta estrutura de poder. Na Baixada nos últimos cinco anos houve 22 assassinatos de políticos, na maioria a investigação não deu em nada!»

RNB ? É verdade que hoje estão aumentando os seqüestros  de jovens pobres  para alimentar a indústria dos órgãos vitais com córneas, corações, fígados, pâncreas, rins, medula. Por que ninguém fala disso?

José Cláudio Souza Alves: «A nossa classe dominante não tem nenhum problema em se vincular com a canalha, com matadores, com assassinos para obter o que ela deseja ou precisa. Comprar um coração ou um fígado virou um negócio altamente lucrativo não só no Brasil mas em todos os países ricos.

Na Europa desaparecem muitos ?imigrados? africanos. Nos EUA a preferência é para os mexicanos que entram clandestinamente no país. A verdade é que nossa classe dominante é bárbara. A barbárie é ela».

RNB ? O PT analisou a questão da violência sempre com uma visão paternalista. Porém quando foi governo no Rio de Janeiro inventou o mito do antropólogo Luiz Eduardo Soares. Depois o Presidente Lula o mandou embora como se fosse algo descartável.  Isso tudo não é contraditório?

José Cláudio Souza Alves: «Eu me considero esquerda, mas não me considero mais do PT. Como você falou, o PT não soube conceituar a questão da violência com seriedade suficiente.

Nas minhas pesquisas tento mostrar que a violência vai ter as suas conexões políticas. Mas ao campo majoritário do PT ? sobretudo o PT do Rio de janeiro ? não interessa aprofundar o tema porque seria um ônus há mais para este setor partidário que passou a hegemonizar o partido e a conquistar prefeituras sem olhar com quem fazia alianças. Era o poder pelo poder e nada mais.

O antropólogo Luis Eduardo Soares representa uma certa intelectualidade ligada a Benedita que concordou com a intervenção (refere-se a época em que o PT nacional interviu sob a decisão do PT fluminense de ter candidatura própria) para favorecer a eleição de Garotinho.

Não é por acaso que Luis Eduardo, já no governo Lula limitava seu olhar exclusivamente à questão do gerenciamento da polícia, sonhando equipá-la tipo a polícia de Nova York. Isto é o grande engodo da classe média que quer proteção, quer segurança e para isso está disposta a aceitar o ?Tolerância Zero?, que nos EUA é a prática indiscriminada da violência policial contra camadas sociais suspeitas de saírem de seus guetos para atacar a propriedade privada.

No caso do Brasil esta teoria é insustentável, porque identificaria a maioria dos pobres como potenciais criminosos. Por outro lado, Luis Eduardo Soares caiu em desgraça porque quando ele se torna Secretário Nacional de Segurança Pública priorizou a criação do Sistema Único de Segurança Pública, que, na realidade significou dar dinheiro para os governos equiparem a aparelhagem de suas polícias sem que isso viesse a modificar a complexidade social da violência. Praticamente foi um ato de continuação ao que era feito na era FHC.

Agora, é bom dizer que Luis Eduardo foi  literalmente queimado não só pelos equívocos que cometeu, mas porque se chocou, sem ter o devido suporte, com pessoas que dentro do governo federal que têm seus interesses montados para manter a estrutura de controle sobre o aparato policial e os fundos públicos.»

RNB ? Você acredita que o governo Lula vai investir na luta contra a violência a partir do lado social, como previa o Instituto da Cidadania e como o deputado Biscaia propõe?

José Cláudio Souza Alves: «Tudo o que está acontecendo no governo é um desdobramento natural do que o PT se transformou ao longo deste período e das vinculações que ele foi construindo. Este governo, sobretudo com a aliança com o PL e agora com o PMDB, não tem mais as condições históricas, acúmulo, vontade e determinação política de se fazer uma alteração real do quadro da violência no Brasil.

Na verdade, o PT não tem mais condições reais de fazer essas modificações, uma vez que abdicou disso há muito tempo, sobretudo, a partir da sua política econômica.

O governo Lula não vai investir nesta área da forma como ele sempre pensou investir porque o projeto político já é outro. 

O que vai acontecer ao governo Lula é tentar se perpetuar fazendo o mesmo caminho que o PSDB percorreu, fazendo aliança com esses setores que são os mais abomináveis deste país e que têm uma estrutura de poder calcada no crime, na violência, no medo.  A mulher do Zito já tem carteira do PT ou não?»

RNB ? Gostaria de  lembrar que o deputado do PT Lindberg Farias e seus associados acreditam que é possível dividir a direita da Baixada Fluminense ao fechar uma aliança com Marcelo Alencar do PSDB e com ele fazer  um governo ?progressista? em Nova Iguaçu. Você acha possível fazer uma aliança deste tipo e quais são os riscos que a esquerda  socialista corre?

José Cláudio Souza Alves: «Primeiro, quero deixar claro que Lindberg Farias, pelo pouco que me consta, não tem nada a ver com a esquerda do PT. Ele, para estar na mídia, iniciou com a Heloísa Helena, com o Babá e a Luciana Genro um movimento de oposição à Reforma da Previdência. No meio do caminho, mudou de opinião, sem dar nenhuma explicação se encostou ao setor majoritário e decidiu disputar a Prefeitura de Nova Iguaçu.

Os estudantes das Universidades Públicas que o elegeram se decepcionaram amargamente, por isto ele simplesmente está procurando outra praia política para se reeleger. Essa aliança que ele fez em Nova Iguaçu, passando pelo Itamar Serpa, que é um deputado federal do PSDB, a meu ver é justamente a farsa que o PT hoje está assumindo em termos nacionais, e não só em Nova Iguaçu.

O Lindberg é apenas a repetição de uma fórmula. O PT, hoje, tem em seus quadros Narriman Zito dizendo que esse seria o caminho de ampliar, com os setores mais ?democráticos?. Esta posição é um equívoco porque Marcelo Alencar, Itamar Serpa, Narriman Zito, não são democráticos. Elas têm vinculação direta com essa estrutura de poder, de domínio, que é calcada no binômio que é clientelismo de um lado e/ou violência de outro.

Eu conheço este pessoal do PT que fala em governo ?progressista? com o PSDB e por isso reafirmo que eles estão cometendo um grande equívoco. É uma política suicida.

As elites, o narcotráfico, os ex-matadores querem comprar o PT porque esta é a melhor solução para consolidar, hoje, sua estrutura de poder. Justificar as alianças com a canalha dizendo que assim vão transformar as eleições municipais num referendo para a reeleição do Lula, a meu ver é um absoluto equívoco. 

O clientelismo é poderosíssimo. Estes setores ligados a Marcelo Alencar, por tudo aquilo que fizeram na Baixada Fluminense, são os mais danosos porque montaram uma estrutura de clientelismo poderosa com vínculos estaduais e federais, convivem com o narcotráfico e o crime organizado e com os ex-matadores. Criaram uma estrutura de controle político com a qual dominam a política local, inclusive em função do medo e da corrupção.

Para a esquerda socialista a consolidação da aliança política de Lindberg com Marcelo Alencar é um equivocado retrocesso, onde se nega o passado e se aceita conviver com o que há de pior na Baixada Fluminense.

Legendas

O livro de José Cláudio Souza Alves Dos Barões ao Extermínio  - Uma história da violência na Baixada Fluminense, foi publicado com o apoio do SEPE

Sem a mobilização popular e sem radicais reformas instituicionais o  governo Lula nunca vai poder acabar com a estrutura do terror. Aliás, pensando em 2006 e seu projeto de reeleição, será que ele quer acabar com toda essa podridão entre política e criminalidade? (F. Chavez)

O Brasil, e em particular a cidade do Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense apresentam um número de assassinatos que é superior as baixas que os invasores norte-americanos tiveram no Iraque e no Afeganistão!  Só a Colômbia, com sua guerra civil, ainda mata mais! (Arq. Adia/A. Durão)

Numa sociedade excludente e sem alternativas, o sonho da maioria dos garotos de rua é se tornar  ?gerente? da boca de fumo. (J. Nunes/Prisma)

Numa sociedade excludente e sem alternativas como a nossa, o sonho da maioria dos garotos de rua é se tornar  ?gerente? da boca de fumo. (J. Nunes/Prisma)

É neste cenário de pobreza, de sujeira, de ausência da sociedade civil, que os jovens das favelas procuram os empregos do narcotráfico, ganhando mais que seus pais!  (J. Nunes/Prisma)

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