Na opinião dessas pessoas, a década de 90 não lhes parece medíocre. São pessoas geralmente nascidas a partir de 1978, ou algumas nascidas, quando muito, depois de 1973. Querendo demonstrar sensatez, alguns dizem que a década não é "essa porcaria" toda que supõe que pensamos e outros chegam a dizer que a década de 90 foi a melhor do século só porque foi a década que ele conheceu.

Não obstante, tais comentários são motivados por um forte subjetivismo. Há quem diga que a década de 90 foi a "melhor do século" porque nela ele conheceu um monte de "gatas" na escola. Ou então foi porque ele fumou mais maconha, sem ser incomodado por isso. Ou porque freqüentou mais festas ou foi a concertos de artistas internacionais sem precisar sair do Brasil (e principalmente para quem mora no Rio de Janeiro e São Paulo que não precisam sair muito dessas cidades, exceto quando o artista só se apresenta em Curitiba ou Porto Alegre). É claro que os jovens atuais hoje se embriagam no narcisismo, no egocentrismo e até no egoísmo. "É tudo eu", imaginam os jovens. E aí chega o Charlie Brown Jr. com aquele papo tipo "seja você mesmo", que fortalece o narcisismo, a Kelly Key fazendo o mesmo com as jovens moças, e ainda vem uma tal de Luka estimulando o espírito de descaso juvenil com "Tô nem aí". A gente reclama por que as rádios rock do Brasil estão muito ruins e lá vão os defensores delas dizendo "tô nem aí". E depois querem baixar a lenha na Luka. A do "Tô nem aí", não a da 89 FM, que é musa deles.

Quando falamos que a década de 90 foi a mais medíocre do século XX, admitimos que a década não é de todo ruim. Há coisas boas em qualquer época, assim como há coisas ruins. Mas se colocarmos o conjunto da obra, algumas décadas se tornam melhores do que outras, porque os fatos positivos se tornam mais significativos e constantes. A década de 60 pode não ter sido 100% positiva, pois houve golpe militar em países da América Latina e a África vivia um clima de guerra civil, mas foi positiva porque a juventude criou um movimento de conscientização, de revisão de valores e de transformação social.

A década de 90 foi a década da Internet, e também a década da revisão histórica. Juntamente com as descobertas da medicina, os dois fenômenos (a revisão histórica era feita sobretudo por livros e filmes) são os poucos progressos da década. Esses pontos são muito positivos, mas vieram mais para socorrer uma década que estava sendo marcada pela mediocridade do que para afirmar sua suposta revolução. A Internet, os livros e o cinema vieram para resgatar fatos e referências que estavam sendo menosprezados, até com certa arrogância e espírito de descaso, pelos jovens que acreditavam na presunção do "novo", o "novo" como que "livre" das referências do passado. A partir daí valores como sintonizar o rádio AM, a música brasileira autêntica, a leitura de livros, passeio de trem, romantismo, humildade e o discernimento entre cultura e mercado, quase viraram hábitos extintos por parte das gerações pós-1978.

Desta geração, a turma nascida de 1978 a 1983 só começou a despertar em 2000, quando viu o vazio de suas emoções baratas e suas diversões inúteis, e quando encarou as Universidades, que fez essa juventude rever seus conceitos, pois antes disso esses jovens acreditavam num mundo tecnológico que trata os jovens como "filhos mimados" e que o consumo era a nova cultura da humanidade. Nas Universidades, a geração 1978-1983 passou a aprender que existe diferença entre música comercial e não-comercial, que É O Tchan nunca é samba de verdade e que Marilyn Manson não faz rock alternativo.

A Internet também se tornou um instrumento de preservação cultural, e seu conteúdo, principalmente no Brasil, era a princípio medíocre e confuso, salvo exceções. Com o tempo, as informações se tornaram mais precisas, mais aperfeiçoadas, e hoje um jovem de 1978, com algum esforço de imaginação, emoção e raciocínio crítico, pode ter a mesma bagagem de conhecimentos de um homem de 1970. De início, os jovens se limitaram aos "brinquedos virtuais": falar em chats, escrever só para "mandar abraço pra galera", ouvir as mesmas FMs comerciais no ciberespaço, mandar mensagens grosseiras em fóruns na rede, e só buscar informações sérias quando as pesquisas escolares exigem. Com o tempo, os jovens trocaram a perda de tempo pela busca de conhecimentos e, embora os diários virtuais (blogs) veiculem muita besteira, também veiculam, em outros casos, informações antigas antes condenadas ao esquecimento.

A década de 90 se tornou medíocre por muitos aspectos que, independente de terem existido em décadas anteriores, se tornaram mais evidentes no período noventista. Muito do que ocorreu de lamentável no século XX se manifestou mais intensamente na última década. Entre os vários prejuízos, podemos destacar os seguintes:

1. A derrubada dos governos do Leste Europeu, ditaduras tidas como "de esquerda", desmoralizou as utopias socialistas não propriamente pelo fracasso do socialismo (que estava longe de ser cumprido por tais ditaduras), mas pela hegemonia da ideologia capitalista e seus supostos benefícios;

2. O processo de imbecilização cultural se deu de forma multiplicada e em quase todos os segmentos: rádio, TV, imprensa. Na música, quase tudo foi nivelado por baixo: da música sertaneja ao rock, passando pelo samba e pela música romântica, foram produzidos arremedos da pior espécie, que acabaram dominando as paradas de sucesso e, pasmem, ganhando até alguma reputação (incluindo fãs fanáticos) frente à opinião pública.

3. O fanatismo tecnológico fez com que boa parte das invenções do século XX fossem abandonadas ou relegadas a segundo plano, ou simplesmente descaraterizadas. As máquinas de escrever saíram de circulação, antes de os pobres começarem a usufruir da datilografia sem gasto de energia elétrica. Os trens, com exceção da maioria dos países europeus, ou eram descuidados de forma a causarem tragédia (Índia, África) ou simplesmente desprezados e quase inutilizados (Brasil). O rádio AM e seu longo alcance foi lesado pela rasteira da "Futilidade Modulada" das grandes FMs. A TV foi entregue à programação medíocre e demasiado comercial. E as referências culturais das seis primeiras décadas do século XX parecem bastante distantes para a maioria dos jovens pós-1978 (que passaram a infância e a adolescência nos anos 90).

4. A crise e as irregularidades na educação e nos meios de comunicação no Brasil fez com que as pessoas assimilassem com naturalidade muitas das distorções e desvios, que vão de informações erradas a valores morais duvidosos, mesmo nem sempre concordando com elas.

5. As gerações mais jovens, que no início dos anos 90 eram crianças, foram as mais vulneráveis à imbecilização cultural, a ponto de não acreditar nessa classificação ou, na maioria das vezes, admitir a existência dessa imbecilização de uma forma vaga, sem se ater a exemplos, que provavelmente envolveriam muitos grandes ídolos dessa juventude em vazio existencial.

6. Os jovens atuais foram manipulados pela grande mídia a acreditar num mundo onde eles parecem os donos, mas na verdade não são, e onde os critérios de conformismo e deturpação de valores ou conceitos são vistos, respectivamente, como "satisfação" e "novos valores". A juventude noventista (nascida a partir de 1978) foi levada a rejeitar, por medo e preconceito, qualquer pessoa que tenha muito senso crítico, rejeitando modismos, valores vigentes e lançando hipóteses que vão muito atrás das aparências, como a própria manipulação da mídia sobre os jovens. Só quando o portador do senso crítico for morto, ele ganha algum respeito e consideração dessa juventude.

7. A década de 90 neutralizou todo um processo de renovação sócio-cultural fortalecido nos anos 60. Um dos aspectos mais gritantes é que o jovem noventista se tornou mais conservador e reacionário, mesmo quando valoriza ídolos recentes (como Charlie Brown Jr. e Rouge), em detrimento dos mais antigos. Os jovens noventistas chegam ao ponto de não quererem mudar o mundo, acreditando que ele já nasceu mudado e pronto para eles, e sua rebeldia se torna, na maioria das vezes, restrita aos aspectos formais: vestuário, vocabulário (gírias), adereços, pose e gestos, com ênfase na preferência por sons mais agressivos ou gritantes.

8. Corruptos e criminosos de elite (ou seja, aqueles que contratam advogados habilidosos) não só continuam a gozar da impunidade de outrora, como agora são até mesmo tolerados ou apoiados (tratados com generosa piedade) pela grande mídia, vide o caso Pimenta Neves. Corruptos de tempos atrás conseguem até mesmo dar a volta por cima no show business, como o empresário e ex-político baiano Mário Kértesz. E ídolos que provocam acidentes de trânsito, como o jogador Edmundo e o cantor Alexandre Pires, que praticam homicídio, como o ex-Big Brother Brasil Dhomini e se envolvem com o narcotráfico, como o cantor Belo (Marcelo Pires Vieira), não só são beneficiados pela impunidade como esta ainda é apoiada por parte influente da opinião pública.

9. Se a década de 80 incomodava por ter sido a década dos simulacros, a década de 90 reforçou tal conceito, à sua maneira. As pessoas pouco têm noção do que é "virtual" e "real", os jovens abusam na criação de pseudônimos na Internet e os reality shows, poucos percebem, não passa de simulação da vida real na tela de TV. Aos sintetizadores usados em excesso nos anos 80, veio a hegemonia dos DJs e da música eletrônica dos 90, que quase sepultaram o modo tradicional de se fazer música. Os jovens, com a Internet, chegaram ao ponto de preferir falar com desconhecidos em chats do que a escrever para os próprios amigos. Nos videoclipes dos anos 90, o uso abusivo de efeitos especiais (corte de seqüência, uso de cores em tom pastel, mudança brusca de velocidade tipo o filme Matrix) tornou-os tão chatos quanto os coreográficos videoclipes dos anos 80.

10. Os valores estéticos foram simplesmente liquidados, o que não tornou a contemplação estética mais democrática. A beleza da mulher nivelou um pouco para baixo, usando a exibição corpórea pelo biquíni como pretexto para uma suposta valorização integral da beleza feminina. Moças de rosto de beleza mediana são tidas como "belas" porque aparecem constantemente de biquíni. Moças de biquíni fazendo caras e bocas são tidas como "sensuais" ou "sexy". Patricinhas que dançam em grupos de pagode (tipo as Sheilas do Tchan), prestando serviço à pornografia grosseira e de mau gosto, são tratadas como se fossem delicadas e pacatas senhoritas com sensualidade refinada (?!) e invulgar (?!?!). Na música, a qualidade melódica ficou em segundo plano, o talento de canto também, e de repente ídolos medíocres da música podem ser queridos e até respeitados apenas por um suposto bom-mocismo.

11. A má formação profissional nas Universidades brasileiras, que encontram a década de 90 como época de agravamento da crise, também se deve à proliferação de instituições privadas de ensino superior que só vêem a Educação como uma simples mercadoria. Só na Medicina, a má formação dos médicos e enfermeiros já custou a vida de muitos cidadãos, falecidos quando poderiam ser atendidos com mais rapidez, competência e atenção.

12. Os EUA demonstraram ser um país não muito agradável em vários aspectos. Dos ideais politicamente corretos e seus sub-produtos, os ideais politicamente incorretos, à ganância bélica dos George Bush, pai e filho, além das escapadas amorosas de Bill Clinton, outros aspectos lamentáveis foram a ascensão do grunge (que deveria ficar restrito ao seu cenário local e aos seus fãs e não ter virado um suposto "grande movimento musical"), o culto aos psicopatas como Charles Manson (tratados como se fossem versões "reais" dos vilões de filmes de terror classe B), as supostas boys bands (que de bandas nada têm) e o próprio neoliberalismo fazem com que os autoproclamados "donos do mundo" empurram para seus cidadãos e para o resto do mundo se tornem o país mais poderoso e nem sempre prestigiado do mundo.

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