ontem, eu fui dar uma volta com o bom povo de oaxaca - na verdade, estive caminhando o dia todo - à tarde, eles me mostraram o lugar onde as balas atingiram - eles numeraram as que eles conseguiram alcançar - me lembrou da entrada da casa de amadou diallos - mas, aqui, o grafiti estava alá antes do tiroteio começar - uma bala que eles não numeraram ainda estava na cabeça dele - ele tinha 41 anos de idade - alejandro garcía hernández - na barricada do bairro a noite inteira - naquela noite, ele saiu para se juntar à mulher e aos filhos dele para abrir passagem para uma ambulância - daí, uma picape tentou segui-la - ele levou um balaço quando ele lhes disse que não podiam passar - eles não passaram - aqueles militares à paisana saíram dando tiros
um jovem que quis ser chamado apenas de marco estava com eles quando o aconteceu o tiroteio - uma bala pasou pelo seu ombro - claramente, ele estava em estado de choque quando nos encontramos - 19 anos de idade - disse que ainda não contara aos seus pais - ele disse que estivera nas barricadas a noite toda - disse que ia voltar assim que a ferida fechasse - com certeza
há poucos dias, uma delegação de senadores estava fazendo uma visita para determinar a ingovernabilidade do estado - eles sentiram o gostinho - foi feita uma convocação para fechar o resto do governo - dúzias saíram andando do paço municipal com paus e uma caixa cheinha de tinta spray - eles assumiram o controle de 3 ônibus municipais e saíram pela cidade afora durante a manhã inteira visitando os prédios do governo municipal e informando-os que estavam fechados - e agradecemos a sua cooperação voluntária - e eles saíram perturbados, porém ainda estavam recebendo - fechado - enquanto saíam da última parada 3 jagunços apareceram e começaram a atirar - 2 ônibus já tinham dado no pé - desordem - uma batalha de 10 minutos com pedras, estilingues e berros - uma pessoa ferida na cabeça - outra na perna - conseguiram chegar ao hospital enquanto a luta continuava - aviso no rádio e as pessoas vieram de todas as partes - os jagunços estavam rondando o prédio - eles se mandaram - estavam lá dentro - ninguém tem certeza - atentos - houve informes de polícia infiltrada ao redor do hospital e as pessoas saíram correndo para vigiar os feridos
o que se pode dizer sobre este movimento - este momento revolucionário - sabe-se que está se erguendo, crescendo, se moldando - dá para sentir - testando desesperadamente uma democracia direta - em novembro, a appo realizará uma conferência estadual para a formação de uma asamblea estatal del pueblo de oaxaca (aepo) - agora, há 11 de 33 estados no méxico que declararam a formação de asambleas populares como a appo - e em el otro lado, lá nos eua, alguns - os fuzileiros navais voltaram ao mar mesmo apesar de a polícia federal que fez estragos em atenco continuar por perto - o novo acampamento no méxico deu início a uma greve de fome - o senado pode expulsar a URO - o que vem a seguir ninguém sabe - é um ponto de luz pressionado contra o vidro - pronto para queimar ou mostrar o caminho - está claro que isto é mais do que uma greve, mais do que a expulsão de um governador, mais do que um bloqueio, mais do que uma coalizão de fragmentos - é uma revolta genuína do povo - e, após décadas de governo do pri mediante subornos, fraudes e balaços o povo se cansou - eles o chamam de tirano - eles falam em destruir o autoritarismo dele - não dá para não ouvir o sussurro da selva lacandona nas ruas - em cada esquina, decidindo agüentar juntos - dá para ver no rosto deles - indígenas, mulheres, crianças - tão corajosos - atentos à noite - orgulhosos e resolutos
voltei da barricada do alejandro com um grupo de defensores que vinham de um distrito das redondezas a meia-hora de distância - fui andando com pessoas bravas a caminho do necrotério - entrei e o vi - nunca vira tantos cadáveres na minha vida - isso te devora - uma pilha de cadáveres sem nomes no canto - quase o número que morrera - sem refrigeração - o fedor - tiveram que abrir o crânio dele para tirar a bala - voltei com ele e com a gente dele
e agora o alejandro espera no paço - como os outros nos plantões - ele está aguardando um impasse, uma mudança, uma saída, um avanço, um escape, uma solução - esperando que a terra mude e abra - esperando o mês de novembro quando ele poderá se sentar com seus entes queridos no dia dos mortos e compartilhar comes e bebes e uma canção - esperando que a praça se entregue a ele e exploda - ele esperará só até a manhã, mas à noite ele espera que o governador e a sina dele não voltem nunca mais - mais uma morte - mais um mártir em uma guerra suja - chorar e sofrer de novo - conhecer o poder e o seu lado podre de novo - mais um tiro é disparado na noite - mais uma noite nas barricadas - algumas pessoas mantêm as fogueiras - outras se enrolavam e dormiam - mas todos estão com ele enquanto descansa mais uma noite no seu turno
