A luta da APPO e do povo de Oaxaca em geral sem dúvida é muito maior do que a morte de Brad Will, ainda mais porque neste momento de luto devemos lembrar e chorar a morte de todos, e não apenas a de um comunicador branco e estadunidense, mas não há como fugir de uma situação concreta: muitos de nós que estes dias estamos escrevendo coisas sobre Brad e Oaxaca em geral somos também comunicadores.

Não o conheci pessoalmente, mas conheci pessoas que o conheceram, e talvez por isso, mesmo que inconscientemente, a morte de Brad nos revire as entranhas como tem feito nos últimos dias. Já estão circulando por aí textos como o do Pablo Ortellado ou do Luiz Hernandez Navarro dedicados especialmente a Brad, alguns de uma perspectiva mais pessoal, outros de uma perspectiva mais analítica. Mas o fato é que hoje Brad é um espelho. Um espelho para todos nós que algum dia em nossas vidas acreditamos em um outro mundo possível e resolvemos tentar nos aventurar, ainda que só um pouquinho, por baixo da pesada superfície dos discursos hegemônicos para buscar outras formas de vida, outras experiências, outras organizações para viver segundo outros princípios aqui e agora.

Obviamente não falo como porta-voz de ninguém e nem reivindico falar em nome de qualquer coletivo, mas partindo da minha experiência pessoal digo que, pelo menos para mim, Brad foi uma daquelas pessoas que deram um passo além. Repito, não o conheci, mas o admiro profundamente por ter libertado sua vida de todas estas amarras que nos prendem para fazer o que deve ser feito.

Não tanto como Brad, mas também vi de perto algumas batalhas e, acima de tudo, algumas experiências alternativas concretas, nestes últimos cinco ou seis anos... A20, ocupações no centro de São Paulo, fóruns de Porto Alegre, as batalhas nas ruas de Quito em abril de 2005, comunidades rebeldes zapatistas, okupações em Barcelona, etc... e tudo isso que seguimos buscando em busca deste outro mundo que às vezes parece tão distante.

E é por isso que me arrisco a dizer que a morte de Brad significa tanto para nós. Brad poderia ser rigorosamente cada um de nós, e neste momento em que escrevo são e salvo do conforto da minha casa o cheiro sufocante do gás lacrimogêneo e o barulho ensurdecedor das bombas de efeito moral voltam para lembrar que pessoas como Brad seguem na linha de frente, ao mesmo tempo tão absurdamente desafiadoras e tão incrivelmente frágeis.

Durante os primeiros tempos do levante zapatista os mexicanos e o mundo saíram às ruas para dizer ?todos somos Marcos?. Hoje nós comunicadores nos reunimos e em luto lembramos que todos somos Brad.