A bibliografia da escravidão



Na obra de Valéria Zanetti: o passado dos negros na Capital, com detalhes da vida familiar, cultural, os crimes e os castigos a que foram submetidos, e um capítulo que debate a visão da historiografia acerca do escravo urbano. (Reprodução)

Naira Hofmeister

Começava o mês de dezembro, em 1964, quando Carlos Reverbel condenava a ausência de registros na mídia sobre o livro de Fernando Henrique Cardoso, Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional. ?Ainda não tivemos a oportunidade de ler uma notícia sequer, a respeito da referida obra, quanto mais um juízo crítico, que viesse atravessar tão duradoura e espessa cortina de silêncio?, dizia o jornalista. A obra, resultado da tese de doutoramento de FHC na Faculdade de Filosofia da USP, havia sido publicada dois anos antes e não teve repercussão alguma nas paginas de jornais.

Passaram 42 anos desde que Reverbel expôs sua indignação no artigo do Correio do Povo. De lá para cá foi instituído o Dia da Consciência Negra ? feriado em diversas capitais do Brasil ? que lembra a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas.

Mais recentemente, uma lei nacional tentou emplacar o ensino de História e Cultura Afro-brasileira em todos os níveis escolares, medida ainda não adotada em nenhuma instituição. No Rio Grande do Sul, um monumento em Pinheiro Machado vai lembrar o massacre da tropa dos Lanceiros Negros em 1844, quando os líderes farrapos ensaiavam os primeiros passos para a rendição e acordo com os imperialistas.

Mesmo com os avanços do Movimento Negro em busca de políticas de inserção, a reclamação de Reverbel parece se repetir em 2006: ?É de causar espécie um livro editado em 1962 não ter sido objeto de atenção até a presente data no nosso Estado?.

Seis anos depois de lançada, a Coleção Malungo, da Editora UPF, ainda não mereceu espaço na imprensa gaúcha. Com 10 títulos já publicados e dois no prelo, a obra aborda a escravidão no Brasil Colonial.

?Realmente a coleção está merecendo uma abordagem jornalística, nem que seja por se encontrar precisamente no Rio Grande do Sul e, salvo engano, ser a única coleção no Brasil dedicada exclusivamente a estudos científicos sobre a escravidão colonial brasileira?, concorda Mário Maestri, coordenador do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo e diretor da Editora da UPF, que abraçou um projeto originariamente bancado por uma editora de São Paulo, na década de 80.

?Malungo era a designação dada pelos africanos angolanos escravizados, aos companheiros aos quais estavam acorrentados ou com os quais compartiram a terrível viagem transatlântica nos tumbeiros?, explica o historiador.

Na atual coleção, todos os livros são - assim como a obra em questão no artigo de Reverbel - fruto de trabalhos acadêmicos desenvolvidos principalmente nas universidades gaúchas, mas não exclusivamente.

?Alguns dos livros publicados na coleção Malungo eram antigas teses ou dissertações, de elevada qualidade, inéditas há anos, por falta de espaço editorial, como o estudo de Théo Loubarinhas Piñeiro, professor da UFF, sobre a crise da escravidão no Rio de Janeiro, ou de Maria do Carmo Brasil, então professora da UFMS, sobre a escravidão no Mato Grosso?, destaca.

Dos 10 títulos já disponíveis para compra, 5 abordam a escravatura no Rio Grande do Sul, cujo acesso, lembra Maestri, era restrito aos exemplares depositados nos programas de pós-graduação. Entre os trabalhos gaúchos, chamam a atenção os estudos de Ana Regina Simão ? hoje professora da Unisinos ? e da mineira Valéria Zenetti, sobre a escravidão urbana em Pelotas e Porto Alegre, respectivamente.

Em Resistência e acomodação: a escravidão urbana em Pelotas - RS (1812-1850), Ana Regina Simão debate a dicotomia escravocrata refletida nas idéias surgidas no final da década de 70, quando se delineou a linha de raciocínio que ?reconhecia a dinâmica escravista a partir da categoria contradição-consenso e não contradição-resistência?, escreve Maestri na apresentação do livro. Ou seja, a condição servil se dava não apenas por causa da opressão dos senhores, mas também por falta de resistência, entende esse viés de pesquisa.

O resultado dessa inversão de conceitos, segue explicando, foi uma mudança no paradigma das investigações, que deixam de se concentrar no campo e chegam aos centros urbanos, até então ignorados pelos estudos. ?Entre todos os protagonistas das pesquisas arroladas que tive o privilégio de orientar, a autora foi sempre a mais atraída pelo pólo acomodação?, reforça.

Em seis capítulos a autora situa o leitor na sociedade escravista brasileira e nas particularidades sulinas, pontua as diferenças entre a prática escravocrata urbana daquela no campo e traça o panorama da cidade de Pelotas e de sua principal atividade econômica: as charqueadas. ?Principais produtos de exportação do Rio Grande do Sul na primeira metade do século XIX, a produção de charque e do couro ensejou a expansão das grandes fazendas pastoris, dando origem a uma sociedade apoiada no braço do cativo, que ensejou um centro urbano escravocrata de grande opulência, como Pelotas?, descreve Ana.

A alforria, a família e a saúde dos escravos também são contemplados no minucioso estudo, que, segundo Maestri, propõe um cenário rico e complexo. Se as alforrias eram quase uma exclusividade das mulheres escravizadas, eram as negras que sofriam problemas de saúde, pois eram os trabalhadores de sexo masculino que recebiam tratamento hospitalar na Santa Casa. A autora lembra ainda que nos registros de filhos de escravas ?a paternidade era ignorada?.

Também em Calabouço Urbano ? Escravos e Libertos em Porto Alegre (1840-1860) aparece novamente a oposição entre o campo e a cidade. Nos estudos de Valéria Zanetti, além da narrativa sobre o passado dos negros na Capital ? que também inclui detalhes sobre a vida familiar, cultural, os crimes e os castigos a que foram submetidos ?, há um extenso capítulo que se dedica a debater a visão da historiografia acerca do escravo urbano. ?A reconstituição histórica de Valéria Zanetti apresenta-nos uma Porto Alegre estranhamente negra, escravista e plebéia, em forte oposição aos cenários tradicionais que diluíram a onipresença do cativo negro nas cidades sulinas?, opina Maestri.

Aliam-se a esses estudos trabalhos acadêmicos recém-defendidos, entre os quais Maestri destaca o de Leandro Daronco, sobre a escravidão em Cruz Alta, e o próximo lançamento da Coleção Malungo onde Beatriz Eifert, aborda a escravidão nas fazendas de Soledade.

A coleção conta ainda com outros títulos de gente que Maestri define como ?consagrados historiadores de outras regiões do Brasil?, Entre eles, Flávio dos Santos Gomes, professor do PPGH da UFRJ, que publicou coletânea de ensaios especializados sobre a escravidão, e o economista e professor da universidade Federal do Piauí, que publicou sua tese sobre a escravidão nas fazendas públicas piauiense e, agora, reeditou seu trabalho ?já clássico sobre a resistência e violência escravista no RS?, Triste pampa: resistência e punição de escravos em fontes judiciárias do Rio Grande do Sul (1818-1833).

A extensão territorial não pára aí: Maestri revela que a coleção começa a dar os primeiros passos internacionais: ?Já está em análise a publicação de dois trabalhos relacionados com a escravidão no norte do Uruguai.?

Publico não falta para as publicações, já que nas últimas da Feira do Livro de Porto Alegre, a banca da UPF tem sido ponto de encontro dos historiadores na Praça da Alfândega. ?Isso assinala, simpaticamente, sua definitiva inserção em nosso panorama cultural?, completa um orgulhoso Mário Maestri.

Os livros podem ser encomendados através do endereço eletrônico da editora -  http://www.upf.br/editora/ - ou no próprio Campus da Universidade, no Km 171 da BR 285, em Passo Fundo. O telefone da Editora da UPF é (54) 3316-8100.



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