"Não é justo atribuir uma malignidade intrínseca à imprensa,
da mesma forma que não existe um salvo-conduto
para erros e desvios de conduta".
(Celso Schröder, Secretário Geral da FENAJ e Coordenador Geral do FNDC. Matéria na íntegra, ao final.)

 

 

Ninguém precisa ler uma única linha da obra de Karl Marx para saber que há uma luta de classes em qualquer canto do país ou do mundo. Está na boca do povo melodia que afirma: "o rico fica cada vez mais rico e o pobre, cada vez mais pobre".

Em uma dimensão menor, como fonte do que ocorre em grande escala, onde houver dois seres humanos, haverá competição, com um tentando superar o outro, lúdica ou desesperadamente, em todos os aspectos de suas possibilidades. E isto é extremamente natural...

Mesmo em povos mais atrasados (!) e não capitalistas, encontramos inúmeras formas de competição ou de dominação, por exemplo, de uma tribo sobre a outra.

É claro que, onde não há propriedade privada, a competição jamais ocorre por este motivo. No entanto, na sociedade capitalista, predomina religiosamente a prática deste esporte dedicado a concentração cada vez maior de riqueza, e, naturalmente, de poder, onde raros alcançam sucesso.

O Deputado Federal Delfim Netto, que exerceu por quase dez anos o cargo de Ministro da Fazenda, sintetiza esta habilidade de forma lapidar, na revista Veja de 15/09/93:

"Quando você ouve um empresário dizendo que está preocupado em alimentar a concorrência
e que busca o bem comum, ou é mentira ou ele é doido e a família está pensando em interditá-lo. O empresário, por definição, é um animal voraz (...) O governo pode pedir tudo ao empresário,
menos que ele desista de ganhar dinheiro".  [
http://br.geocities.com/ditaduracivil/pluto.html
 ]

Daí ser mais fácil acreditar na hipótese de que há uma malignidade intrínsica no sistema capitalista e em suas empresas, as quais visam assegurar o lucro a todo o custo, independentemente de qualquer princípio ético ou moral. Claro que seus proprietários, sócios e colaboradores jamais admitem isto publicamente...

Assim, é função da Sociedade (e seria do Estado, caso não fosse totalmente dominado por eles) manter esta malignidade em rédeas curtas, grossas e muito bem enjaulada, coisa que ainda estamos muito longe de ver. Afinal, a grande maioria da Sociedade é também hipnotizada pela mentira estereotipada e aveludada dos grandes meios de comunicação.

Vejamos como o dicionário Priberam define o capitalismo:
 
"Regime económico e social caracterizado pela propriedade privada dos meios de produção e de distribuição, pela liberdade dos capitalistas para gerir os seus bens no sentido da obtenção de lucro, e pela influência dos detentores do capital sobre o poder político." [ http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx ]
 
Fortunas incalculáveis são contabilizadas ou não ("Caixa 2") nas campanhas eleitorais dos legítimos representantes dos ricos, visando financiar a propaganda enganosa que afirma serem eles os legítimos representantes do povo, iludindo, assim, a massa ignara, mantida nesta condição para legitimar um processo que  assegure a maioria dos eleitos vinculada aos interesses da minoria privilegiada economicamente.
 
O poder da mídia comercial e mercenária é fundamental para manter a população iludida em uma falsa democracia, sob a qual se esconde a mais cruel ditadura do poder econômico (plutocracia e cleptocracia), ora em sua versão civil, ainda pior que a militar, já que permanece invisível para suas vítimas, meras peças inconscientes de uma engrenagem que visa dar o máximo, ao rico, e o mínimo, aos pobres. Estes pagando 40 % de impostos, cuja maior parte é "legalmente" desviada para atender prioritariamente os interesses "públicos" dos donos do capital e para sustentar a vida nababesca de uma minoria da população quase isenta do fisco.
 
Existindo dentro deste contexto, uma grande empresa capitalista de comunicação possui como clientes preferenciais o Estado em seus três níveis, bem como as grandes empresas particulares e estatais .
 
As notícias mais interessantes para o leitor, ouvinte ou telespectador inteligente, geralmente giram em torno destes maiores atores do cenário político, econômico e financeiro. Os demais recipientes se deleitam com futilidades sobre futilidades, praticando o ócio destrutivo.
 
Portanto, a primeira coisa que o proprietário de uma empresa de comunicação comercial de porte, como qualquer outra, pensa, é no faturamento, isto é, em não contrariar seus anunciantes. Mas, havendo conflito de interesse entre a verdade e o lucro, qual o seu editor-chefe foi previamente determinado para escolher?
 
Sem nenhuma sombra de dúvida, a verdade será glosada pelos Robertos Marinhos da vida, comandando seus páus-mandados para servir aos poderosos de plantão. Mesmo sendo perfeitamente reproduzida em uma matéria primorosa de um jornalista honrado, honesto e digno, como defendem (espontaneamente ou obrigados, só Deus sabe!) os funcionários da Rede Globo, em abaixo-assinado. Isto quando não for sequer solicitada matéria sobre temas inconvenientes ao profissional que vendeu sua atividade intelectual e sua consciência ao patrão, como é natural de qualquer relação empresa-empregado. A censura pode ser na fonte, sendo o profissional apenas um páu-mandado a fazer cegamente o que lhe ordenam. Um soldado do oligopólio: "Ouvir e obedecer, senhor!!!" Caso ouse criticar interna ou publicamente a empresa em que trabalha, perderá, imediatamente o emprego.
 
E, naturalmente, pessoas como Beth Costa, que, paradoxalmente, com uma mão serve ao inconstitucional oligopólio da mídia e, com a outra, milita no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, se sentirão particularmente ofendidas por terem a empresa em que trabalham sendo acusada má-fé e tomarão tais dores para sí, como se os jornalistas ali tivessem autonomia para veicular o que bem entendem.
 
Certamente, colocada em tão elevado patamar pelos signatários, tal honra, honestidade e dignidade  jamais foram suficientes para inspirar algum abaixo-assinado contra a Rede Globo, a respeito do caso Time-Life, Proconsult ou manipulação do debate de Lula com Collor em 1989. Ou contra a viúva  Marinho por ter afirmado que o Roberto (seu marido) colocou Collor na Presidência e o tirou de lá. Ou para que a Globo veiculasse os filmes "Muito Além do Cidadão Kane" e "A Revolução não Será Televisionada". Ou ainda para que fosse ali entrevistado Roméro da Costa Machado, ex-auditor da empresa e autor do livro "Afundação Roberto Marinho"? [  http://www.fazendomedia.com/globo40/romero16.htm ]
 
É muito difícil concordar com Celso Schröder, diante de tantos fatos que nos apontam para uma malignidade intrínseca da grande mídia capitalista como decorrente da malignidade intrínseca do capitalismo. Ou da malignidade intrínsica do ser humano, já que, nas tentativas de socialismo, também ocorre análoga contradição entre a teoria e a prática. Coisa da qual sequer a elevada doutrina cristã escapou...
 
As inúmeras atrocidades cometidas pela humanidade no decorrer dos séculos e recentemente, evidenciam uma vocação natural do autoproclamado "Homo Sapiens" para o mal, para a guerra entre nações e tribos, com todos os requintes de violência, tortura, crueldade, genocídio, terrorismo particular e de Estado, para a exploração comercial e fiscal sem limites. São eventuais e raros os exemplos de dignidade, honra e honestidade, especialmente daqueles que detem alguma forma de poder midiático ou econômico. Ou que para ele trabalham subalternamente.
 
Se partirmos do princípio de que a mídia é intrinsicamente boa, neutra ou verdadeira, não precisaremos de legislação alguma para controlá-la, nem de um movimento para tentar reduzir a ilícita concentração econômica no setor e jamais teremos gana para mantê-la sob o mais rígido controle, sob o fogo mais cerrado, completamente dominada e docilmente servil ao verdadeiro interesse público para o qual foi criada, na teoria. Na realidade, o que ela oferece de bom é muito pouco, comparado com o mal que pratica diuturnamente, escravizando mentes e corações, para manipulá-los através do cabresto eletrônico ou impresso. Seja com um objetivo meramente comercial ou político, o que não diferencia muito uma coisa da outra.
 
Assim, também não é fácil acreditar que seja possível a um profissional de comunicação exercer sua atividade de forma honrada, honesta e digna dentro de uma grande empresa capitalista, mais especialmente se ela for a líder de um oligopólio inconstitucional, o qual, pelo simples fato de existir, constitui uma aberração jurídica, ética e moral, da qual todos os que ali militam, comungam. Mas o que não falta é mercenário e mercenária querendo servir ao maior inimigo da democratização da comunicação!
 
Qualquer um que conheça a história da Rede Globo, como exemplo maior do que ocorre nas demais detentoras do oligopólio, jamais terá alguma dúvida de que ela significa tudo que não desejamos para nosso país, em termos de comunicação.
 
O simples fato destas empresas desrespeitarem, há longa data, a Constituição Federal, de parlamentares fazerem o mesmo, sendo proprietários de emissoras, de exercerem impunemente o chamado Quarto Poder, quando não se sobrepõem ao primeiro, aponta, insofismável e concretamente para a existência de uma malignidade intrínseca na mídia capitalista, a despeito das potencialidades positivas ainda astronomicamente distantes de serem, um dia, realizadas.
 
Deve ser por estas e outras que João Pedro Stédile e Dom Mauro Morelli afirmam que qualquer Presidente da República em nosso país é apenas um motorista da elite dominante e Marilena Chauí defende que as eleições elegem quem vai servir aos interesses desta classe social, exigindo uma democratização de fato do Estado brasileiro.
 
É fácil constatar que, infelizmente, na prática, "existe um salvo-conduto para erros e desvios de conduta" das grandes corporações da mídia em nosso país, até mesmo porque o que não falta é quem a defenda (ou aos seus empregos), desde a primeira hora em que for confrontada, incapazes de fazer-lhes uma única crítica específica sequer.
 
Basta acessar documento emitido pela Fenaj em 1990 e ver como funciona o setor e que, de lá para cá, nada mudou. Ou melhor, com o Sistema Globo de TV Digital, importado do Japão, graças à traição do Presidente Lula (ou mais um motorista da elite) aos interesses nacionais, a coisa vai ficar ainda muito pior do que já está. [ http://www.enecos.org.br/docs/proposta.doc ; www.intervozes.org.br ; www.fndc.org.br ]
 
A questão que nos afronta, então, é se, com os poucos e complacentes militantes que temos no movimento pela democratização conseguiremos, fazer algo mais além que participarmos desta Sociedade do Espetáculo, e não legitimar o estupro ético da informação que nos é imposto frequentemente.
 
A Fenaj, em 1990, quando saíamos da Ditadura Militar, defendia que ?Sem democratizar a comunicação, não haverá democracia no Brasil.? Das duas, uma:
(a) ou o Brasil conseguiu fazer a democratização da comunicação e tornou-se uma democracia de verdade, de direito e também de fato, ou
(b) não foi democratizada a comunicação e estamos numa ditadura, em sua versão civil.
 
Mesmo o Presidente da Fenaj, Sérgio Murillo de Andrade, defendendo que esta instituição se mantém, ainda hoje, alinhada com este princípio, não temos motivo para desativar o FNDC por sua inutilidade (caso alguém defenda que já tenha sido feita a democratização da comunicação), nem estamos percebendo qualquer jornalista ou a entidade que os represente afirmando em alto e bom tom que não estamos numa democracia, ou ainda, que estejamos numa ditadura. Por quê?!
 
A menos que haja uma outra alternativa para interpretarmos a afirmação acima, para a qual permaneço dialeticamente receptivo...
 
Vale a pena dar uma olhada no "Manifesto contra a Ditadura da Mídia", disponível no portal do MST - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra: www.mst.org.br (coluna da direita, segunda matéria) ou mais exatamente http://www.mst.org.br/mst/listagem.php?sc=4 .
 
 
 
(*) Heitor Reis é engenheiro civil em Belo Horizonte e articulista da FAIBRA - Federação das Associações de Imprensa do Brasil [ www.faibra.org.br ] e da KitNet [ www.reforme.com.br/kitnet ]. Contatos: heitorreis@... . 17/11/2006, 17:00 h.
 
 
 
 
 
 


http://www.fenaj.org.br/materia.php?id=1393

Liberdade de Imprensa 06/11/2006 | 20:37
FENAJ condena agressões a jornalistas e clima de histeria

Na semana passada três casos envolvendo a liberdade de
impresa ganharam destaque na mídia nacional. O primeiro
foi a hostilização de militantes do PT a vários
jornalistas na entrada do Palácio da Alvorada, na
segunda-feira (30/10). No mesmo dia, à tarde, em
entrevista coletiva, o governador reeleito Roberto Requião
(PMDB/PR) ofendeu de modo genérico jornalistas e empresas
de comunicação. E no dia seguinte, o depoimento de
três repórteres da revista Veja nas dependências da
Polícia Federal em São Paulo. Tais fatos atingiram
indiretamente a FENAJ, que emitirá nota pública de
esclarecimento.

Para o presidente da FENAJ, Sérgio Murillo de Andrade, o
caso das agressões em Brasília é condenável. "A
FENAJ defende que as pessoas possam manifestar sua
contrariedade à cobertura da imprensa, mas jamais irá
concordar com ameaças e violências contra jornalistas ou
a própria imprensa, como instituição". Segundo ele,
é totalmente mentirosa a nota publicada na coluna
"Painel" da Folha de São Paulo, publicada no dia 31 de
outubro, insinuando uma concordância com a intolerância
dos militantes do PT. "A Folha só me ouviu depois da
publicação da nota. O texto publicado traz
declarações que não fiz. Foi escrito por telepatia",
reclama Murillo.

Já em relação ao caso do Paraná, a FENAJ se
solidarizou com o Sindicato dos Jornalistas do Paraná, que
emitiu nota oficial condenando a atitude desrespeitosa do
governador Requião em relação aos jornalistas. "O
governador tem o direito de reclamar do que considera uma
partidarização da cobertura do processo eleitoral, mas
não pode ofender de modo genérico profissionais e
veículos", comenta Murillo. A FENAJ solicitou que o
governador abra uma agenda de diálogo com os Sindicatos
dos Jornalistas do Paraná e de Londrina, visando superar
os conflitos de integrantes do governo, e especial o
próprio governador, com os profissionais de imprensa.

Quanto aos jornalistas da Veja que foram chamados a depor na
Polícia Federal de São Paulo, ao tomar conhecimento do
fato a FENAJ entrou imediatamente em contato com a
Superintendência da PF em Brasília, que assegurou a
legalidade da convocação e um tratamento não
intimidatório aos profissionais. Outra providência foi
solicitar que o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo
entrasse em contato com os envolvidos. Porém a direção
da Veja declarou ao Sindicato que só iria se manifestar
através de nota oficial durante a noite.

A nota divulgada pela Veja afirma que houve constrangimentos
aos jornalistas. Mas a procuradora da República, Elizabeth
Kobayashi, que testemunhou os depoimentos, afirmou que, no
seu entendimento, não houve intimidação pessoal. Agora
faz-se necessário que os jornalistas envolvidos se
manifestem.

Para o secretário geral da FENAJ, Celso Schröder,
"não é justo atribuir uma malignidade intrínseca à
imprensa, da mesma forma que não existe um salvo-conduto
para erros e desvios de conduta". Schröder informa que o
Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação,
do qual a FENAJ é integrante, está preparando um estudo
que avalia a cobertura das eleições, ouvindo
especialistas e jornalistas que trabalharam neste processo.

Antes disso, a Executiva da FENAJ divulgará uma nota
relacionando estes acontecimentos e a cobertura do processo
eleitoral. "É preciso tranqüilidade e serenidade para
análise e posição responsáveis. A FENAJ já foi
vítima deste falso clima de histeria, que de modo algum
contribui para o aperfeiçoamento das instituições
democráticas no Brasil", conclui o presidente da FENAJ.
Para ele, a melhor defesa da liberdade de imprensa é a
instituição de um rigoroso sistema de responsabilidade
que, infelizmente, a mídia se recusa a discutir
publicamente.