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Biblioteca Pública Estadual de Belo Horizonte. Praça da Liberdade. Ao lado do palácio do governador. 22/04/2008. 20 h. Evento promovido pelo Conselho Regional de Psicologia de MG, cujo presidente, Rogério de Oliveira Silva coordenou-o democraticamente, culminando num bem civilizado debate.
Márcio Pochman encerrava sua explanação sobre "Possibilidades e perspectivas da redução da jornada de trabalho em nosso país", onde defendeu, como já o fez em outros ambientes e documentos, a jornada de três dias de trabalho por semana, com apenas quatro horas por dia de atividade laboriosa. Desta forma, tornou-se pré-candidato a presidente da República para alguns! E condenado ao fogo do inferno para outros...
Numa brilhante, serena e racionalíssima exposição, motivou um bom número de presentes a se manifestarem a favor de sua tese. Minhas ressalvas: Vai além de meus limites intelectuais compreender como ele afirma que o Brasil é refém das grandes empresas e, ao mesmo tempo, considera que temos uma democracia (governo do povo, etc.)... Assim, também implica em que seja possível uma democracia sem participação popular. E que haja uma democracia representativa em que os representantes não representem os interesses dos legítimos representados e estes não participem desta representação, cobrando resultados compatíveis com o que se espera. Mais detalhes em Tipos de Poder.
Em minha intervenção, comecei preparando o público para citar um antigo e antiquado livro, para alguns. Além do mais, minhas citações vinham de alguém que poderia até não ser "O Maior Psicólogo do Mundo", mas seus ensinamentos de milênios atrás, surpreendentemente estavam sendo confirmados, ainda hoje. Aconselhei que eles poderiam ser compreendidos como poesia, por quem não adotasse a fé por medida.
Era uma outra forma de traduzir a tese de "trabalhar pela vida e não mais por necessidade", citado pelo ilustre professor e presidente do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, lembrando-me também da Escala de Valores do psicólogo Abraham Maslow.
"Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna..." (João 6:27)
"Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas." (Mateus 6:33)
Mas, no princípio não foi assim... A Bíblia nos apresenta o trabalho físico como um castigo de Deus por causa do pecado (erro) do ser humano, deixando a entender que ele ainda não havia trabalhado até aquele momento ou, se o fazia, não parecia tão pesado como passou a ser dali em diante:
"No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás." (Genesis 3:19)
Mais tarde, conversando com um conselheiro do CRP-MG, lembrei-me que já havia sugerido aos meus leitores menos afeitos ao tema espiritual, encarar tal obra como se fosse um arquétipo, em duas matérias. Também devaneei profundamente sobre a religião, procurando dar-lhe um enfoque mais racional, em outra ocasião: Espiritualismo Dialético
Pochman havia citado Karl Marx sobre este assunto, da seguinte forma:
"A liberdade somente surgirá após o término desta forma de trabalho para satisfazer necessidades materiais."
E a contrapartida cristã, vinculada aos versículos já citados acima:
"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará." (João 8:32)
Há algum tempo, aventurei-me em traçar um paralelo entre Marx e o Messias, comparando textos de ambos.
Enquanto o Evangelho oferece a possibilidade do ser humano tornar-se uma nova criatura, uma nova raça, nascendo de novo e sendo um com seu criador, o outro judeu, ainda que materialista, quase dois mil anos depois, profetiza o surgimento de uma nova sociedade, onde haverá paz, justiça e fraternidade. Nem pobres, nem ricos. Todos iguais e tudo em comum, como no princípio da igreja verdadeira: ninguém dizia que coisa alguma lhe pertencia. (Atos 4:32)
Lamentavelmente, muitos aproveitam o tempo obtido com a redução da jornada de trabalho para outro emprego...
"Como construiremos esta nova sociedade?", perguntou eloqüentemente nosso palestrante. Afinal, pelos estudos que desenvolve com outros estudiosos, se a humanidade continuar no atual processo antropofágico e auto-destrutivo, por exemplo, a Amazônia será uma savana, a China desaparecerá e a Rússia se tornará um grande pântano gelado.
Uma nova sociedade jamais será construída sem que surja um novo homem, uma nova mulher, defendo eu.
Mutantes sempre existiram, naturalmente. Mas, hoje, podemos observar alguns destes estranhos no ninho, sonhando com um novo mundo, um novo céu e uma nova Terra, onde mana leite e mel para todos. São completamente abnegados e despojados de si mesmos, dando suas vidas para que outros possam, algum dia, tê-la em abundância.
Trabalham, não por dinheiro, mas pela revolução, para que cheguemos logo à terra prometida. O proletariado, ao paraíso. Obscuros, anônimos e insignificantes Mahatmas Gandhis, Betinhos, Irmãs Dulces, etc. Escolhem, pois, a vida! Uns, a vida física ("bios", no grego). Outros, a transcendente ("zoe").
Juntos, aceleram o processo dialético da história. Sonham coletivamente um sonho que vai se tornando realidade, encarnando o ideal de Che. Galeano busca, neste horizonte, o foco de sua caminhada...
A nova sociedade começa quando Cleber Andrade não manda mais seus filhos para a escola que apenas produz peça de reposição para uma engrenagem capitalista e mói nossa dignidade, transformando-nos em meros consumidores, adoradores do deus mercado em seus templos refrigerados, verdadeiras cavernas de Platão.
A nova sociedade começa quando profissionais bem remunerados deixam seus empregos para ganhar a metade numa cidade do interior, para ter mais tempo com a família, num ambiente menos selvagem.
A nova sociedade começa quando alguém se indigna com as Isabellas da periferia, ceifadas tragicamente também, mas sem o brilho da Vênus Platinada a iluminar a dor dos que ficam e permitir que milhões dela participem.
Ah!... Como é duro ser um destes mutantes e estar à frente da Curva de Gauss, abrindo horizontes para a multidão de normóticos que ainda não percebem o caminho estreito da salvação... Mas vale a pena. Aliás, é a única coisa que realmente vale a pena!
(*) Heitor Reis é engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (www.cmqv.org). Nenhum direito autoral reservado: Esquerdos autorais ("Copyleft"). Contatos: (31) 3486 6286 -
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