A inexistência de xenofobia no Brasil é uma grande mentira como a da democracia racial, a da igualdade perante a lei e muitas outras. A verdade é que xenofobia existe por aqui desde o final do século 19. Nessa época, ela era mais violenta em relação aos portugueses, mas atingia também outros imigrantes: espanhóis, italianos, sírios etc., que disputavam o mesmo mercado de trabalho com os brasileiros.

Em 5 de setembro de 1896, o jornal "O Jacobino" noticiou que um grupo de "nativistas", residentes na estação da Ressaquinha, reuniu-se no dia 30 do mês anterior para protestar e enviar uma mensagem ao Congresso Nacional contra um grupo de italianos "ingratos" que teriam "afrontado e injuriado com a maior ostensividade a Nação brasileira".

Com relação aos árabes, havia nesse período uma competição das lojas instaladas no centro da cidade do Rio e os vendedores ambulantes, árabes que desfilavam com seus porta-miçangas. Entre esses vendedores existiam mulheres, as "turcas", que muitas vezes recebiam dos donos das lojas baldes de água em suas mercadorias e nelas próprias, deixando-as encharcadas pelo resto do dia. Eram freqüentes os assassinatos de estrangeiros por simples motivo de diferença de nacionalidade.

No início do século 20, chovem acusações contra estrangeiros ditos perturbadores da ordem da República. Foram tomadas medidas repressoras, como as sucessivas leis do senador Adolfo Gordo a partir de 1907, determinando a deportação de militantes anarquistas quando de origem imigrante.

Com o intuito de combater a xenofobia no próprio meio operário, alguns jornais foram fundados como "L'operario italiano" e "O Estrangeiro". Mas é principalmente a imprensa anarquista que está sempre a chamar a atenção dos trabalhadores no sentido de que o inimigo comum deles é o Estado, o capital e os patrões; os males não advêm dos imigrantes, tão miseráveis e famintos quanto os nacionais.

Um dos maiores crimes contra estrangeiros no Brasil foi a criação, em 5 de maio de 1922, pelo presidente Arthur Bernardes, da Colônia Penal de Clevelândia do Norte (no Oiapoque) verdadeiro campo de concentração, onde foram presos principalmente imigrantes. O estrangeiro era visto como propagador de pensamentos sociais diferentes, considerados anômalos, dentre eles o anarquismo, o qual era tido como contrário à suposta natureza dócil dos brasileiros.

Durante a ditadura militar instituída pelo golpe de 1º de abril de 64, os comunistas também foram caracterizados como propagadores de ideologias exóticas, "estrangeiras", contrárias à pátria.

A xenofobia, na verdade, é muito útil aos tiranos, pois faz com que trabalhadores se voltem contra trabalhadores estrangeiros, em vez de se unirem como classe, contra seus exploradores. O fato é que a pátria e o nacionalismo não são mais que mentiras que a classe dominante utiliza para isolar trabalhadores de nacionalidades diferentes. Os exploradores sabem que, somente iludindo e separando os explorados, poderão mantê-los sob seu domínio.